domingo, 9 de dezembro de 2012
Sobre flores, rosas e morte.
O suicídio prematuro emurche-se somente
quando o sol é mais forte que um trago d’água.
Velamos a primavera com coléus na auréola
enquanto a chuva de verão desbota e
carrega para longe suas cores falidas.
Dura e triste caminhada solene por entre
as hienas de dentes a mostra, que faceiam
e contemplam o próprio demônio na
falsificação de seu inquieto riso. Turgi-se
um raio frio de luz sobre a pálida face. E mais
uma camélia nasce para esbanjar seu perfume.
De tulipas retiro a morte. A morte nasce
em tulipas assim que colhidas. Como num
sonho vivo, ela só descansará quando alguém
a recebê-la e se juntar à ela. Pois é certo dizer
que são portadoras de tal maldição e infessas
em conduzir qualquer velório sem lágrimas.
Do outro lado da ponte, mulheres com
a ternura e pureza da flor do morango,
sexos coberto por uma malope. Danças
esmagando margaridas que, despetaladas,
boiam na superfície do lago paralisado
junto as vitorias-régias.
Flores, rosas: a resposta para o mundo!
Se queres demonstrar paixão - envie rosas.
Flores ornam velórios. Rosas são o pedido
de desculpa que homem algum jamais
conseguirá por em palavras. Jardins são
ambientes de extrema paz.
E seus perfumes atraem os mais profundos
e as mais intensas sensações já sentidas.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
O gosto do fel
"O lugar que partimos é o lugar em que chegamos, filho."
Queria que meu pai, em tom de conclusão, me dissesse esta frase em qualquer momento da vida.
Queria que me pai tivesse me ensinado a fazer a barba, a dirigir, me ensinado como um homem deve tratar uma mulher, como se começa algo bom, como planejar, como lidar com um planejamento que não deu certo. Coisas que farei e direi a um filho meu, ou direi e farei a mim mesmo durante a vida até o fim. Porque, felizmente, não sei o meu destino e, certamente, meu pai também não sabia o dele. Mas de uma coisa, ao menos isso, tenho certeza sobre a vida e entre a vida (bendita graça concedida, multiplicada em células e desintegrada em pó) há um meio tempo que se chama viver, e é bem ali que são compartilhadas experiências, ensinamentos ganhados e repassados com carinho afim de ver o meio tempo não passar em branco como, na maior parte das vezes acontece.
Me arrependo de ter começado a compreender o sentimento, a emoção, a tristeza, a raiva, a alegria, o amor tão tarde e fico menos contente ainda em saber que isso não foi adquirido com meu antecessor. E aqui está algo que me enterra em plena vida: me arrependo de algo que nem sequer é culpa minha. Ora! se és filho, és um pote vazio que continuará vazio até os olhos se encherem com aquilo que vês, com aquilo que sentes e se ninguém lhe proporcionar nada disto, nada disto haverá em seu pote e nada disto o serás. O que, em outras palavras, é o mesmo que dizer que consumirás o que a terra lhe oferecer cegamente, pois é do nosso instinto preencher vazio, é do nosso instinto estrelar o céu, tapar buracos, porque ninguém quer que sua vida passe em branco.
Até diria que foi melhor assim: se moldar ao mundo é melhor que ele se moldar a você. Escolher o que vai ao pote é melhor que alguém decidir o que irá colocar algo por você. A sensação de liberdade é sempre maior, os riscos também. Riscos não medidos, atitudes não pensadas. Consequências incabíveis de ser retratadas...Eu não sei o que é melhor, não sei o que é bom. Eu não sei quem sou, afinal. Parece desespero, e é! Desespero causado pela dúvida de pensar que é melhor assim ou estou fantasiando em demasia destino que me foi imposto?
Escolhas são sempre uma alternativa indubitável de aparecimento. Torná-las algo bom pra você não é uma certeza, mesmo com a convicção de um sábio monge que passou a vida meditando no Tibete, tomá-las é tornar-se parte da coesão de manter o mundo girando, em ciclos intermináveis de sucesso e fracasso. Aprendizado, a base de tudo que somos construídos, é um grande vazio sem essa fé de um deus que rogamos sempre que nos vemos sem chão.
O lugar do começo, o lugar que despus-me de tudo que vivi, o lugar que vou, o lugar que não vi...
O pai que não tive, as palavras que não disse, a mãe que pouco abracei, a mesma mãe que nunca busquei um conselho, a vida que imagino, a vida que vivo, a vida que não quis, as coisas que me são lícitas, os verdes que morreram com toda esperança de dias coloridos, o choro abandonado na infância, a infância abandonada por uma criança, a pipa perdida ao vento...
Mesmo sem entender o que meu pai queria me passar, eu queria ter ouvido de qualquer maneira.
domingo, 11 de novembro de 2012
Ao sabor das lichias
Longe de raiar o dia
fogo aceso que ardia.
Na noite languidez surgia,
luminosa ceiva brotava
e a trança se desfazia.
Em tom pleno acaricia.
O cego escuro gemia.
Dançou a canção rabularia;
colocadas em sussurros
enquanto o corpo frenesia.
No peito coração arritmia,
Suspiro, sufoco...asfixia.
Não acalente a ousadia,
fonte de febris delírios
construídos em harmonia
Pela manhã luz fria
sereno teu corpo caía.
Envolto lençól pendia
numa ponta bailava e
teu seio transparecia.
Amarrotada fronha retorcia,
sopro de galhos na ventania.
Ao pé da cama a rouparia.
Chuva & sol, enxurrada
Novembro oferecia de poesia.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
É do tempo se estugar
que plaina sobre o pedregulho no quintal.
Dias de violentos arrebóis e a ternura da noite
sucumbe sem revelar por de trás das estrelas
o rubor estilhaçado e a melancolia
dada aos que tem sede - sede de amar e
sede do amor. Sede de flor colhida prematura.
Cabe, então, retirar a canga de madeira
e andar sob silenciosas tardes cor jaspe,
reconciliado de cicatrizes deste céu arado.
dada aos que tem sede - sede de amar e
sede do amor. Sede de flor colhida prematura.
Cabe, então, retirar a canga de madeira
e andar sob silenciosas tardes cor jaspe,
reconciliado de cicatrizes deste céu arado.
Cabe, então, visitar a velha amoreira do
canteiro que não precisa mais do toco
de caibro para se erguer sozinha.
Ainda que raro, ver as flores da nogueira
canteiro que não precisa mais do toco
de caibro para se erguer sozinha.
Ainda que raro, ver as flores da nogueira
se abrirem após a chuva e após a chuva
ver as poças refletirem o sol
num espelho incandescente.
ver as poças refletirem o sol
num espelho incandescente.
Então, em retiro de falsa exaustão,
o recolhimento se faz necessário
em pequenos goles de garapa.
o recolhimento se faz necessário
em pequenos goles de garapa.
Logo depois, minuir os passos na
calçada que levam até feira
calçada que levam até feira
mais próxima às sextas-feiras.
Desatinar-se do que é realmente assaz
e execrar o fim como se o fim fugisse
de fora pra dentro trazendo consternação.
Desatinar-se do que é realmente assaz
e execrar o fim como se o fim fugisse
de fora pra dentro trazendo consternação.
E nesse funil aceca, as nuvens passarão para
o inabalável gorjeio matinal, descerão
diretamente para o oeste da cidade e se
espairecerão num mudo lampejo pardacento.
o inabalável gorjeio matinal, descerão
diretamente para o oeste da cidade e se
espairecerão num mudo lampejo pardacento.
Tão lento agora é a asa do beija-flor...
que permanece in loco a seguir no
seu ingênuo caminho dos roseirais de verão.
Tão monocarpo sois vós
que seria um pecado sem redenção
que permanece in loco a seguir no
seu ingênuo caminho dos roseirais de verão.
Tão monocarpo sois vós
que seria um pecado sem redenção
consumir de tão bela hóstia para tornar-se
um eterno escravo a mendigá-la mais uma vez.
um eterno escravo a mendigá-la mais uma vez.
Rápido e fugaz, é de encontro ao mar que o rio
se sustenta tão imponente. E é no fundo rio
do teu corpo que vivem os mais belos
e raros peixes — Inalcançáveis para quem anseia
vê-los e visivelmente brilhante para quem olha
no fundo dos teus olhos.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
poema
O cemitério de libélulas
Uma lugar triste, o cemitério de libélulas.
Era cercado de medronheiro nascidos mortos,
entretanto, havia no centro das tumbas uma flor
que vivia a vida de tudo que pulsava e tinha cor.
Tal flor, com desprimoradas pétalas negras,
vivia de luto velando a morte ao seu redor.
Os cabelos do sol não alcançavam ali,
e o uivo do vento entoava o amargor.
Uma a uma, libélulas zumbiam rumo à
luz negra que surgia das entranhas da terra
como armadilha de doce alimento.
E ali mesmo as consumia. E ali mesmo
o escuro ganhava força.
Porque a vida de um inseto é curta.
E o sol arde nas asas de um véu poroso,
pois a vida e a morte tem sede dos eloquentes
e rufantes devaneios dos pequenos seres que
são consumidos pelo primeiro indicio
de vida após a sua própria vida.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
poema (para Wallace Stevens)
Um coração de paredes inerves e glabras,
para a luz penetrar e com afinco não sofrer o albedo,
e que homem purgaria descascar seu próprio peito
e entregar-se em vivalma para corpos desalmados?
A tarde continua a debruçar no desgosto
vazio incompleto da sensação de nada cumprido.
Por que, então, o oco se completa quando é agosto,
de rosas cheirosas, de dias claros e céu colorido?
Voo em silêncio até o rosto laureado que alcancei,
deixei ir, e não vi mais entre as ventarias brumadas.
O amor, emagrecido, rubígine e em bronze pó se torna.
Porque até a flor mais bela morre um dia e até o dia
mais colorido de agosto se acinzenta. E se esgota
os corpos após o amor. E se recolhe para despetalar,
no frio de inverno, a rosa que foi dada com frescor.
Um coração que foi colocado num corpo errado,
uma palavra proferida na hora certa, uma alma
suja em lama que conflita com espírito imaculado.
Meu peito é gaiola de borboletas que não
voam ao ver a luz do dia. Não reagem em
qualquer miséria no som do vento, no som de umas
poucas folhas provocadas por elas mesmas.
As horas são retalhos e em grandes pedaços são
os dias. Manta costurada por gestos e expressões,
E mulheres rendam e bordam para ornar o sepulcro
de um jazido escuro. E finda com espada brilhante
cravada na terra sobre sete palmos do coração,
alma e espírito libertos da gaiola.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
para a garota do submarino amarelo
Límpido e claro como fumaça de chaminé,
vapor que sobe e desce em dias de céu claro.
Lento e viscoso como sangue que flui do corte
delicado. Assim é teu rosto: claro de veias verdes.
Queria poder encontrar-te em estreitos corredores,
onde aquele rápido momento se faz eterno.
Ver teu sorriso passando, como paisagem
de janela, me fazer guardá-lo como promessa de vida.
Lancino, o dia e a noite, por mares de teu corpo,
sem a maresia dos luares fulgurosos, e de rompante
escorregar nos teus lábio de sorriso cerrado.
Poder colher-te, faminto, flores da primavera e oferecer-lhe
todo o perfume. Para que as rosas aprendam o sublime
aroma que tu exalas na raiar dos dias de sóis tenros.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
sketch
Quantas vezes vi rostos pustulosos,
e corpos sonolentos com semblantes
ilegíveis, e mesmo assim emergiam-se para
para comer mais uma fatia de alegria.
Alegria lúcida ou lunática. Talvez de tempática --
como diria um filósofo: Odi, ergo sum!
Não, ouvindo de longe um murmuro,
a veia não salta para bailar ao som
do coração. É um desamor de olhos
esfumados, um assucador estragado que
não separa de forma clara o que se sente.
(Ora! Quanto fragor estes vizinhos fazem
que mal consigo espremer as palavras aqui.)
O que surge entre a poeira
e a transparência vidrada de um
olho entreaberto, é o que levo de
lúgubre: a decência de um homem
a procurar por seu cão a muito abandonado,
que carrega a dubitável turgência de
viver sem amar.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
um olhar sobre a política.
Tebas, recém chegado na vida
colocado perante o trono em choro
não sabia que estava indo contra
os canhões da ira humana.
Das certezas de Tebas, filho
único do rei, um solitário glorioso,
desamparado de uma infância
sem qualquer infância assim causada,
certamente pelo seu clico
selado pelo anel da realeza,
ficaria a de que seu destino se
resumiria em governar povos.
Torcia o nariz pelo que
achavam a seu respeito do pleito
de reger a destreza de seu pai.
E assim o fez: tornou se
escritor, poeta e filósofo:
caminhava entre as barracas
e nunca comprava uma vestimenta
sequer. Perguntavam-lhe
porque tanto olhar e nada comprar;
respondeu-lhes que nada mais
distraía o olho da sensatez
do que a ilusão de possuir a matéria
provida visando a riqueza.
E foi contra todas as verdades
estabelecidas pela crença
de sua era.
E assim, como todo pensador
fora do quadro, acabou sendo
executado em praça pública
a mando do herdeiro subsequente.
Enquanto aguardava sua execução
dizia que a introspecção filosófica levava
o ser a superar a dor, a doença
e até própria morte.
Tebas, sem escritas disseminadas,
morreu despertando na civilização
os canhões das falsas verdades
hierárquicas conduzidas
pelo cego poder de liderar.
"Eu não acredito num homem que trabalha
para melhorar a vida de outro homem".
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
para antes do amor
Parto então mar adentro
me parto em tais partes
e antes que atinja o fundo,
amanheceu o novo mundo.
Na trilha que percorreu só
deste lado, destilado em pó.
Onde a curva do teu seio
percorro em sussurro.
Frizante e colante na beira,
corrente de vento marítimo,
foice em linha no rosto
meu coração fora do ritmo.
Teu véu se abre como flor
de primavera, teu rosto
untado do óleo irradiado
do poço do novo mundo.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Finda Agosto
Agosto repousa lento trazendo o sol abaixo,
e as rosas se recolhem como caracóis
porque a luz do poste logo será acesa.
- Como é triste o entardecer...
Levado pelo vento gatuno, o pólen fecundado
é certeza de girassóis da cor de seus cabelos.
Pois tua pele branca é nuvem que me foge aos dedos.
Teu respirar é calor que se desprende do chão
e atravessa a janela na boca da noite.
Teus dedos são ramas que crescem
na face e atingem a pura seiva do gozo.
Teus olhos são lamparinas que aquecem
a alma em estado ectoplasmático.
E tua fala é como arpa tocada pelos
anjos que disseminam a paz no coração.
Num dia sem nuvens olhando pro horizonte,
percebi que os olhos se vidram quando
não encontram nada, e que esta esfera azul
soçobra em luz movediça sob os gerânios na janela.
Terra impávida, polvilho vermelho, pegada de mazama,
isandros amassados e algo me diz nous sommes là.
Sonhos sem foco como lágrima pendurada nos olhos,
são assim que os sonhos me apresentam.
Mas não estes sonhos de figuras definidas:
destes me lembro, ainda bem que distantes,
porque estes costumavam pincelar de volta
a vida pela manhã - mas tento falar
do sonho que de tão obscuro
é também sensual, assim
como as fotografias de Irina Ionesco.
Porque o corpo nu é nata do calor emulsivo da pele,
é expressão muda, é linguagem viva
lida com o toque cego na centelha de um grito
mudo proferido às três da manhã.
e as rosas se recolhem como caracóis
porque a luz do poste logo será acesa.
- Como é triste o entardecer...
Levado pelo vento gatuno, o pólen fecundado
é certeza de girassóis da cor de seus cabelos.
Pois tua pele branca é nuvem que me foge aos dedos.
Teu respirar é calor que se desprende do chão
e atravessa a janela na boca da noite.
Teus dedos são ramas que crescem
na face e atingem a pura seiva do gozo.
Teus olhos são lamparinas que aquecem
a alma em estado ectoplasmático.
E tua fala é como arpa tocada pelos
anjos que disseminam a paz no coração.
Num dia sem nuvens olhando pro horizonte,
percebi que os olhos se vidram quando
não encontram nada, e que esta esfera azul
soçobra em luz movediça sob os gerânios na janela.
Terra impávida, polvilho vermelho, pegada de mazama,
isandros amassados e algo me diz nous sommes là.
Sonhos sem foco como lágrima pendurada nos olhos,
são assim que os sonhos me apresentam.
Mas não estes sonhos de figuras definidas:
destes me lembro, ainda bem que distantes,
porque estes costumavam pincelar de volta
a vida pela manhã - mas tento falar
do sonho que de tão obscuro
é também sensual, assim
como as fotografias de Irina Ionesco.
Porque o corpo nu é nata do calor emulsivo da pele,
é expressão muda, é linguagem viva
lida com o toque cego na centelha de um grito
mudo proferido às três da manhã.
sábado, 4 de agosto de 2012
Dias Negros
I.
Lá fora a neve se junta ao redor de um tronco.
A lenha queima aqui dentro me proporcionando calor.
Fogo que estala, e cada faísca despertara de leve meu sono.
Tenho chá numa caneca suada em cima de um livro velho
de Milan Kundera com marcas de bolor na capa.
Vento brando lá fora, e meu espírito se vai entre
as montanhas - se entrelaça nas raízes expostas
e avança levando a sombra, consumindo o escuro
perverso e mórbido. Paisagem branca
de um brilho fosco, a sombra
de final de tarde a esconder atrás de escombros
ao longe soterrados pela neve suja.
Luz que se apaga na boca dos peixes; sou morte
evidente iminente em tingir o claro de preto, o dia
de noite, o doce de amargo e a lágrima de sangue.
II.
Minha terra não é mais minha, e este céu âmbar se serra
em partes por lâminas doces. Mina do pulso o sangue
que agora se aninha na linha da mão e ruboresce
antes que se coagule...
Ao me deitar, fecho os olhos, e ouço o silêncio
cobrir o corpo de sombra turva que se recolhe
e abriga os sonhos mais negros da noite.
E tudo se espalha pelo chão como petróleo bruto,
porque o sangue é frio e percorre como um rio
glacial. Voz da noite grita rouca e percorre o telhado,
a lua range os dentes e as nuvens trespassam
sob o claro como sereno matinal dos dias frios.
Mais uma vez entro em quintais que nunca vi
e que não sei de quem são. Pois a noite
se divide em morte e ressurreição.
As ruas vazias, me dizem que não
é hora de ir. Ainda não, porque as folhas
continuam a dançar a melodia de vento agourento.
A coruja entocada não atreve-se sequer
um voo para chamar a morte no telhado úmido.
Almas choram a melodia triste do urro noturno,
e ainda se faz orvalho do margaridal despetalado.
Não a vida após às três da manhã, e todo sono
e castigo por ter de praticar a morte em poema.
III.
A manha é fosca, o sol brilha mas não vê ninguém.
As brumas do sono ainda pairam sobre a cama,
e logo me vem a turva a visão do momento
que era dor e agora é cadáver.
São pedaços efêmeros dos meus dias, em que
até o refúgio se torna um lugar perigoso de se estar.
Sim, o cais revela ondas violentas onde toda
brisa lhe trazia a saudade da calmaria marítima.
E agora, sempre o agora é algo tenebroso
que salta dos ombros e se transmuta disforme.
Apaga-se a luz, e o formigamento é pertinente
ao ponto de sangrar pelos olhos todo amor
que se apresenta em riste nos pelos
do braço. A manifestação desses dias
negros é algo imolável, e o regrar de uma
rosa falecida, é sim chorar sobre o túmulo
de um morto. Sem cores. Entretanto elas
invadem os olhos como se o sentimento
fosse algo descartável: não quero ver as cores
do céu, não quero ver os brilhos de seus
sorrisos. Rasga o papel em branco
e jogue os pedaços pro ar, pois assim
é a vida: escrever no ar como se fosse
importante, como se alguém conseguisse ler
em todos os níveis estes esboços.
Escurece, entretanto a vida degenerativa.
Ao longe, o arrebol consome almas que
insistem em clamar a carne do próximo.
De doces sonhos é feito a vida, e de amarga
verdade se faz a realidade.
IV.
Tão pouco dura o dia e tudo
é de passageira paisagem vista da janela.
Este céu não era deste azul pálido,
(ou serão meus olhos já mortos em vida?)
E o entardecer rubro-laranja
anuncia o frio da noite. Aquela fresca
cascata secou e tudo que havia ao redor
sucumbiu, nem os pássaros cantam mais lá.
O coração tanto sobe ao teto de lamentos
que a seiva se tornou quebradiça.
Neve que nunca mais cairá de seu rosto,
toque que nunca ei de esquecer, porque
a memória atrevida guarda consigo
as tardes sentados na calçada
fazendo escopo do futuro: uma cozinha
de cerâmica em xadrez, os bolos de cenoura
com cobertura de chocolate feitos com as próprias mãos.
Mesmo em dia quentes, a lúgubre decência
é gelo que degela sobre areia no horizonte.
E este pó circunda o vasto deserto em que
me tornei. O amor pelas pequenas
coisas se preencheu de vazio no buraco
perfurado pela angústia e pela dor.
São passos translúcidos sem ti ao meu lado,
e a tua foto adormece virada de fundos na gaveta.
O que faria sem tua imagem fatiada entre o olhar
e sem teu cheiro mortificado? O que seria da noite
sem o silêncio do escuro e das pétalas caídas?
O que seria do amor sem a ferida de um outro
amor que não se cura?
Nas veredas, um pedido de socorro se proclama no eco
das montanhas pedregosas. E por onde passo
a grama amassada é o passado que piso.
Lembro-me de quando meu coração não amava:
o mundo era mais redondo e o sol não machucava.
Nem mesmo o dançar das folhas dos ipês
era algo triste de se ver.
Lembro-me das quentes noites de sábado
em que o cheiro da feira supurava o perfume
das barracas e que sua mão se dava a minha.
Se algo faz alguém vivo, é ser memorado
como algo bom, é ter a escrita transbordada
por um sentimento queima como o sol.
Tão pouco dura o dia e tudo
é de passageira paisagem vista da janela.
Este céu não era deste azul pálido,
(ou serão meus olhos já mortos em vida?)
E o entardecer rubro-laranja
anuncia o frio da noite. Aquela fresca
cascata secou e tudo que havia ao redor
sucumbiu, nem os pássaros cantam mais lá.
O coração tanto sobe ao teto de lamentos
que a seiva se tornou quebradiça.
Neve que nunca mais cairá de seu rosto,
toque que nunca ei de esquecer, porque
a memória atrevida guarda consigo
as tardes sentados na calçada
fazendo escopo do futuro: uma cozinha
de cerâmica em xadrez, os bolos de cenoura
com cobertura de chocolate feitos com as próprias mãos.
Mesmo em dia quentes, a lúgubre decência
é gelo que degela sobre areia no horizonte.
E este pó circunda o vasto deserto em que
me tornei. O amor pelas pequenas
coisas se preencheu de vazio no buraco
perfurado pela angústia e pela dor.
São passos translúcidos sem ti ao meu lado,
e a tua foto adormece virada de fundos na gaveta.
O que faria sem tua imagem fatiada entre o olhar
e sem teu cheiro mortificado? O que seria da noite
sem o silêncio do escuro e das pétalas caídas?
O que seria do amor sem a ferida de um outro
amor que não se cura?
Nas veredas, um pedido de socorro se proclama no eco
das montanhas pedregosas. E por onde passo
a grama amassada é o passado que piso.
Lembro-me de quando meu coração não amava:
o mundo era mais redondo e o sol não machucava.
Nem mesmo o dançar das folhas dos ipês
era algo triste de se ver.
Lembro-me das quentes noites de sábado
em que o cheiro da feira supurava o perfume
das barracas e que sua mão se dava a minha.
Se algo faz alguém vivo, é ser memorado
como algo bom, é ter a escrita transbordada
por um sentimento queima como o sol.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Grow up.
Outras mansões foram erguidas aos arredores.
A terra continua batida, mas as árvores ganharam altura.
Na antiga garagem ao lado do pé de tamarindo,
não existia aquela mesa de sinuca. A entrada está devastada,
não era possível ver o céu, porém agora é a única visão que se tem.
As poucas flores que haviam lá, estavam morrendo sob o sol.
Crescera mato e grama ao redor da casa que cresci.
Mero descuido do atual proprietário.
O trio de pés de jabuticaba com mais de 30 anos
de cultivo e regadas intensas nos fim de tardes
que meu avô costumava ligar a mangueira
e esquecê-la ali, só pra nos dar enormes frutos na época.
Quem dera se soubessem eles que
umas das poucas coisas que exijo do mundo fosse que aquilo
nunca mudasse. Mas as pessoas mudam e o mundo, de forma
cruel, responde a altura.
O lugar que se descobre o mundo
é também o lugar que se enterra a infância.
Porque a memória é âncora e também é vela.
Fica pra trás todo esse momento que o vento
soprou pra longe, para acordar dias mais tarde
e mais maduro como os morangos de fim maio.
Trago em mim o mundo que criei e que recrio
toda vez que ele para de girar. Não se mata
o passado e também nenhuma flor.
Não se esquece da inocência nem da dor que um dia foi deixar
a terra em que andei descalço para calçar meu sapatos.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Julho: tarde, noite e morte
Nas tardes o véu vermelho
cobre de sangue as ruas
e afogueia o céu azul.
Segue mansidão o mar
de gente olhando pro chão.
Julho se enterra na terra
pisoteada, esmagada, moída,
movida pelo rancor
de desejar mais um dia em teu seio.
-
Julho é sopro de sereia
entoando belas canções para
o corpo que se ausenta
e naufraga em água escura.
Julho é mais do mesmo,
é fim adiado da metade
de um começo brando.
É repouso em grama verde,
e no céu a imensidão do mar.
-
Lugares que gritam ao longe, mas não os vi.
Não alcançam mais as ondas que
quebravam aos meu pés.
Escuto, de distancia não calculada,
o salgado queimar e me lembro
do gole dos beijos que tomei,
e que agora lamentam
o silêncio de uma longa partida.
Os sorrisos que vi e que agora
tais lábios estão serrados para o amor.
Fogem para o alto notas
de um piano desafinado.
E fogem minhas mãos de
teus cabelos sedosos
tangidos com mortas açucenas.
domingo, 22 de julho de 2012
Julho: manhã
Pois revive o pássaro para cantar o dia que nasce.
Raia o dia e faz-se a luz penetrar na tez,
luz que alimenta jasmins e espalha perfume.
Rutila as brumas matinais,
de cores primárias se pinta o dia
e ruboresce no céu gelado as nuvens
vaporosas de Julho.
É de um brilho intenso que se
faz o frio que arde na dormência cortante do toque.
Dos pelos em riste ao narizes vermelhos.
Dos movimentos lentos à voz trêmula.
Do vento seco ao galho tombado.
O solstício se vinga e não há arrebol
alaranjado no horizonte distante.
Logo o dia vai se pôr novamente
e logo a noite desabotoará o vestido da madrugada.
Para que no fim de julho as parreiras dêem o fruto da geada.
Para que no fim as pessegueiras sejam colhidas com o
orvalho deslizando na casca como lágrima que escorre no rosto.
Raia o dia e faz-se a luz penetrar na tez,
luz que alimenta jasmins e espalha perfume.
Rutila as brumas matinais,
de cores primárias se pinta o dia
e ruboresce no céu gelado as nuvens
vaporosas de Julho.
É de um brilho intenso que se
faz o frio que arde na dormência cortante do toque.
Dos pelos em riste ao narizes vermelhos.
Dos movimentos lentos à voz trêmula.
Do vento seco ao galho tombado.
O solstício se vinga e não há arrebol
alaranjado no horizonte distante.
Logo o dia vai se pôr novamente
e logo a noite desabotoará o vestido da madrugada.
Para que no fim de julho as parreiras dêem o fruto da geada.
Para que no fim as pessegueiras sejam colhidas com o
orvalho deslizando na casca como lágrima que escorre no rosto.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Para Cecília. Com gosto de hortelã.
Não há dúvida que
meu velho coração mastigado
se ruboriza com facilidade.
Isso porque acredito na
divindade suprema
que roga por algo acima
do que pode ser visto.
-
Claro, teu sorriso é claro,
e tua boca, tão pequena,
esconde um sorriso claro,
tão claro, mas tão claro...
Teu corpo é um relicário.
Teu aroma boticário.
Cecília é jovem e bonita.
Ombros largos e agressivos.
Não vejo o pousar em Cecília,
nem mesmo nas suas mãos,
do tamanho de amarílis,
que desprezam a gravidade
de exercer sua atividade.
Ao seu redor tudo se assenta.
Mesmo assim, há realento
em cada piscar de olhos.
Há dinâmica em cada uma
das pintinhas de seu rosto.
Isso porque os morenos
olhos de Cecília, são balões
de ar quente que flutuam
no céu de São João:
Leve teus miúdos e arredondados
olhos pra perto do sol,
onde brilham equitativo.
Feche teus olhos a noite
e veja que as estrelas que brilham
é por causa de ti, Cecília.
meu velho coração mastigado
se ruboriza com facilidade.
Isso porque acredito na
divindade suprema
que roga por algo acima
do que pode ser visto.
-
Claro, teu sorriso é claro,
e tua boca, tão pequena,
esconde um sorriso claro,
tão claro, mas tão claro...
Teu corpo é um relicário.
Teu aroma boticário.
Cecília é jovem e bonita.
Ombros largos e agressivos.
Não vejo o pousar em Cecília,
nem mesmo nas suas mãos,
do tamanho de amarílis,
que desprezam a gravidade
de exercer sua atividade.
Ao seu redor tudo se assenta.
Mesmo assim, há realento
em cada piscar de olhos.
Há dinâmica em cada uma
das pintinhas de seu rosto.
Isso porque os morenos
olhos de Cecília, são balões
de ar quente que flutuam
no céu de São João:
Leve teus miúdos e arredondados
olhos pra perto do sol,
onde brilham equitativo.
Feche teus olhos a noite
e veja que as estrelas que brilham
é por causa de ti, Cecília.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
julho
Ainda paira na soleira a brisa de maio,
alçam voo no norte as andorinhas em bando,
ainda na evanescência do orvalho vespertino
algum sono se desprende do chão de volta ao corpo
e tudo se parece com as folhas de outono.
Ainda flutua o sereno da madrugada, e endurece
a lágrima da vela tarrada.
A noite dormia enquanto o silêncio
se enchia de fúnebres instantes,
e as cortinas se inchavam e murchavam,
[como dois pulmões.
Os móveis de madeira estalavam seco
o retorcer da expansão material
e o soprar do vento uivava desarmonicamente
entre os pinheiros balançantes.
Sei que na manhã seguinte se desabrocharão
as margaridas. E nos olhos que as olham,
a ardentia se revelará num lampejo a adejar
em tais miúdos olhos embotados.
Ainda que deixe de respirar a brisa retumbando
e vibrando neste sangue.
Ainda que degele o amor tomado pela
distância e suas gotas almejem matar
a sede do pecado, o coração
desamável fechado em rocha fria,
erguerá os olhos pra cada sol que nascer.
sábado, 30 de junho de 2012
Quinta dos Bosques
Ouço o frio vento que se curva sobre o escuro,
e logo o silêncio cincina num bruto açoite.
O breu se esfacela, e a noite é mais
escura instantes antes do dia nascer.
Ascende o sol de inverno em bel-prazer,
enxuga o sereno acolhido pelos muros
de tijolo cru. Numa poça d´água alguns
pássaros se banham pra depois alçar largos vôos.
Belas são as brumas das estorças gotas,
transbordando em corações lacerados.
Belas são as manhãs em que uma canção
acorda o dia impermisto porque de natureza prava
somos feitos e seguimos relutantes.
Estive com gente vivida,
e vi que a surpresa da vida
é viver a surpresa que se espreita.
Andei por ruas de terra arada, e vi
os velhos de chapéu em frangalhos,
camisa com manga arregaçada. Arrastando
enxada, enrodilhando mato morto e
fumando cigarro de palha enquanto
assistia o mato virar fumaça amarelada.
Essas terras me trouxe algo que antes não
conhecia, e que agora vejo que sempre
esteve aqui, mas o tempo o deixou em ruínas.
Belos são os manguezais que deixei pra trás.
E agora o passado é turícremo porque um
dos velhos deixa a metade de uma romã
para as mulatas comerem e a outra metade
ele come.
Agora o passado foi jogado ao rio do destino
incerto, porque umas das rendeiras mexe no tacho
de cobre, o sabão de amanhã.
O chão rachado, a terra vermelha, as flores
brancas das mangueiras anunciam frutos
para setembro.
Porque é tudo ciclo e até lá o presente sopeará
em vários tempos:
Tempo de plantar, tempo de colher.
Tempo de encontrar, tempo de perder.
Tempo de apagar, tempo de escrever.
Tempo de matar, tempo de viver.
Tempo de amar, tempo de morrer.
domingo, 24 de junho de 2012
poema
Lamina que corta sonhos, gasta e cega de tanto culminar estas alucinações de um corpo em repouso, de uma mente inquieta. Nas jazidas do leito, lugar de febrís vozes de outrora e que ainda agouram o raso sono, padece a sóbria visão e perambula pelas paredes os fantasmas que, vez e outra, sussuram no ouvido em tom menor:
Oh! Terra de minhas lágrimas! Por quais ilhas teus pés têm se afundado em areia?
Oh! Sede de minha boca! Por onde teu vestido se esvoaça ao sabor do vento?
Oh! Calor de meu beijo! Que alegres almas têm sido comtempladas com teu sorriso?
Seque teus cabelos molhados, menina, e se deite ao sol, para que no sono embalssamado perpetues para sempre. E ainda que o sol não brilhe mais no céu de maio nem a lua arda nos corações e banhe os enamorados; as pegadas sempre terão as formas de seus finos pés.
Ao longe, sim ao longe da realidade, um coração ao léu naufraga e vê teus faróis e os segue pelas águas salgadas durante a noite.
Me escorro por entre teus dentes, porque o riso agora é pó e os pés caminham tortos a viramundo.
Estive por entre dias em que o céu nunca foi tão azul e várias vezes o sol coube nos meus olhos. Andei por ruas desconhecidas, entretanto reconheci o canto dos pássaros e também os ipês amarelados. Passeios a dois sob o pôr do sol, a primeira viagem às águas sulfurosas, a visita ao museu; nunca existiram e ainda assim sucumbem no fundo do mais escuro pensamento.
Sei que é letal procurar por equinócios passados, sei que ainda existe uma nuvem transparente de tudo que carrego aqui, lá. E mesmo assim venho buscar, nos restos dos moídos ossos, atracar me mais uma vez no teu seguro cais.
Oh! Terra de minhas lágrimas! Por quais ilhas teus pés têm se afundado em areia?
Oh! Sede de minha boca! Por onde teu vestido se esvoaça ao sabor do vento?
Oh! Calor de meu beijo! Que alegres almas têm sido comtempladas com teu sorriso?
Seque teus cabelos molhados, menina, e se deite ao sol, para que no sono embalssamado perpetues para sempre. E ainda que o sol não brilhe mais no céu de maio nem a lua arda nos corações e banhe os enamorados; as pegadas sempre terão as formas de seus finos pés.
Ao longe, sim ao longe da realidade, um coração ao léu naufraga e vê teus faróis e os segue pelas águas salgadas durante a noite.
Me escorro por entre teus dentes, porque o riso agora é pó e os pés caminham tortos a viramundo.
Estive por entre dias em que o céu nunca foi tão azul e várias vezes o sol coube nos meus olhos. Andei por ruas desconhecidas, entretanto reconheci o canto dos pássaros e também os ipês amarelados. Passeios a dois sob o pôr do sol, a primeira viagem às águas sulfurosas, a visita ao museu; nunca existiram e ainda assim sucumbem no fundo do mais escuro pensamento.
Sei que é letal procurar por equinócios passados, sei que ainda existe uma nuvem transparente de tudo que carrego aqui, lá. E mesmo assim venho buscar, nos restos dos moídos ossos, atracar me mais uma vez no teu seguro cais.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
asco
Que raízes crescem aqui no horizonte estiolado, beira a maresia do mar no verão.
Em pétalas cor-de-rosa, frondosas, regenerado. O frolo dos pés pisando no chão.
Imaculado desadorno, é tempo que está fechado. Debruar vosso rosto em feição.
Em tom bravio estremeço: Estás ao meu lado? Olhas, e respondes um mudo Não!
O sol se põe em campos precocemente desertos. A luz da lua colore de tristeza o camafeu.
Impetuosos ventos castigam o peito todo aberto, entre o adulto e uma pipa voando no céu.
Emoldurados retratos vazios de olhar incerto, a órbita dos teus cabelos cobertos por um véu.
Desacredito do meu coração rumbeador e desperto. E sei do destino impiedoso, frio e cruel.
Realizar o tempo pelas cordas que cintilam contra as águas das sombrosas manhãs.
Se esvai em expansão todo o universo que habitas e que rege a suprema tolice de viver.
Esguelha otuso o desejo de suavizar o que nunca poderá ser desfeito: o de apenas ser.
sábado, 9 de junho de 2012
Introspecção
Não conto mais as vezes que estive preso numa devesa, porque daqui ainda é possível observar o mundo e toda sua gente: algumas com frescor de banho tomado, outras tão simétricas quanto um templo de cristal. Agora não quero mais sair daqui porque me dá gosto ver as terras, os arvoredos prometidos, os pomares arejados, as moças singelas, os poetas jovens e os velhos sábios. Agora quero permanecer aqui, porque só aqui existe um céu corpulento com suas nuvens espaçadas, só aqui cresce cerejeiras douradas. E a tarde é sempre quieta e coberta por uma sombra, então essa mesma sombra percorre as avenidas de margens cinzentas e leva paz aos rostos pálidos. Embora o cansaço permeie entre os olhares, há doçura na voz, há fogo que brilha mesmo em dias chuvosos. Tantas vezes vi manhãs sem sol e de pensamentos encalidos que me calei diante do todo silêncio. O rosto inclinado como se fosse algo terrível de se erguer, meandrara ainda latente, logo o dia se lilaseava como se um deus jogasse sua mizena e lá fosse os corpos escolhidos pela sorte. Não me lembro das vezes que meu corpo esteve preso numa dessas redes porque minha mente ainda adormecia no leito. Esperando, desesperando e procurando a liberdade. Agora, o vento sussurra contra a janela como se o frio batesse nela pedindo licença pra entrar. Agora, uma máquina escava o asfalto sem motivo aparente. Agora, algumas garotas se maquiam para ficarem mais bonitas. Agora, todos o pássaros estão aninhados. Agora não há estrelas no céu, entretanto isso não quer dizer que elas estejam mortas.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Quarto vazio, página obsedada
Tão longe leva as cinzas a muito tempo assentadas do verão adormecido. Calçadas vazias e corroídas do vento, vão se as marcas esfoliadas dos sapatos. Varre as ruas lúgubres do centro sem paciência. Nas paisagens costeiras o vento esculpe rochedos como artesão renomado. Carinhosamente leva e traz a solidão e silencia os ouvidos da alma em tom divino de sol nascendo. Imparcial e mortal, vagueia na mansidão evocando a neblina sobre os lagos frios. Sorrateiro e misterioso, companheiro de viajantes noturnos e a quem se interessa em aproveitar sua própria companhia. São tempos secos e quentes que se ascendem em abraços matinais, e suas corriqueiras complicações respiratórias. Vi, com certo ardor nos olhos, o sol se elevar em arrepios trazidos por fios de gelo na essência da pele, quente e pulsante que respira sangue e inspira aromas florais. Ao ímpeto dos corações em brasa espalhadas entre paredes sujas, escorre da boca antes seca, o sangue negro borbulhante. Junto aos pés sofridos, morre a glória de lavrar a relva morta onde sopram os ventos alísios. Nas mãos, o labor da colheita mal sucedida. Ainda assim se estendem na ternura dum gesto de adeus. São essas as mãos que esfregam a terra quebradiça e se propõe a limpar o suor do rosto. Corpos derradeiros perecem antes do nascer do dia, a luz mortiça briha em rubro e castanho, revelando peixes a boiar. Açoitando, o vento se esgueira entre os sonhos recobrindo as casas. Sombra penumbrante e acuada. Atormenta o corpo prevalecendo na noite o desfoque borrado do dia. Estio permeado entra uma lavoura e outra. E o cão não mateja mais com seu dono no inverno. Seus dias se tornaram insossos, e digo que pobre é a criatura que perdeu a fé.
Tão longe, e tão incrédula se vai a poeira do verão a muito tempo derruído. Feito noite mal dormida ao despertar de sensações espasmódicas. Noite de sonhos temerosos, de encontrar os olhos dos quais tenho fugido, os olhos dos quais fecho os meus para não vê-los novamente e reaprender que o amor ainda existe e que vive ali naqueles olhos que refletem como lâmina ao sol. Como um artefato fora dele se pendura esta voz branca. Meu coração é meu refúgio, minha imagem está destroçada e o vento continua a roer os ossos. Não esculpe-me como os grandes rochedos das costas; nessa perspectiva, seria como empalhar um corpo para seu sepultamento num dia de um feriado. Lenta e cortante, desliza pela face o brilho das manhãs gélidas, e o retorno ao espelho é uma atitude impiedosa da sustentação da boa aparência.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
depois da chuva, fim.
onde o medo seja o claror, mais que a verdade dilacerada pelo céu límpido,
onde o amor não tenha como cúmplice o pecado de conceber tão atroz teus olhos,
onde a faúla não resista ao calor dos pensamentos e se cale antes de nascer o dia,
onde piso, com força e rancor, é sobre o glaciário de sensações que restou.
porque esse doce já não é tão doce quanto um dia foi, e não nunca mais será,
porque antes se cumpria o epibatério de imergir-se em simples gestos,
porque o sono é incapaz de acordar de si mesmo, mesmo na lucidez,
porque tua imagem se tornou mafabé, e não ressuscitará dos mortos.
agora, diferente de antes, bóreas estão carregadas de poeira lunar,
agora, diferente de antes, a alegria perdeu o brilho
[como um peixe que perdeu suas escamas,
agora, diferente de antes, o toque dormente refece minuciosamente a face,
o agora, diferente de antes, tudo difere de todos os antes e de todos os agora.
depois da chuva, todos os olhares são tristes,
depois da chuva, o nada é quase tudo,
depois da chuva, o pensamento é lento, senão nada,
depois da chuva, o arco-íris é o recomeço.
onde o amor não tenha como cúmplice o pecado de conceber tão atroz teus olhos,
onde a faúla não resista ao calor dos pensamentos e se cale antes de nascer o dia,
onde piso, com força e rancor, é sobre o glaciário de sensações que restou.
porque esse doce já não é tão doce quanto um dia foi, e não nunca mais será,
porque antes se cumpria o epibatério de imergir-se em simples gestos,
porque o sono é incapaz de acordar de si mesmo, mesmo na lucidez,
porque tua imagem se tornou mafabé, e não ressuscitará dos mortos.
agora, diferente de antes, bóreas estão carregadas de poeira lunar,
agora, diferente de antes, a alegria perdeu o brilho
[como um peixe que perdeu suas escamas,
agora, diferente de antes, o toque dormente refece minuciosamente a face,
o agora, diferente de antes, tudo difere de todos os antes e de todos os agora.
depois da chuva, todos os olhares são tristes,
depois da chuva, o nada é quase tudo,
depois da chuva, o pensamento é lento, senão nada,
depois da chuva, o arco-íris é o recomeço.
sábado, 28 de abril de 2012
meu empacho (ou o mês de maio)
A maio que se inicia.
Porque, dentre todos os meses,
maio traz consigo a polidez
das manhas mais frias e agudas.
A maio que cresce.
Porque o barbante se desvincilha
descobrindo a pálida tez de
seu próprio brilho.
A maio que aprende.
Porque o sol crucita
às margens do corpo batido
lancetando a carne crua.
A maio que grita.
Porque a luz de maio culmina
e os pássaros não gorjeiam
mais cantos alegres.
A maio que se cala.
Porque a terra se faz improlífera
e inabitável. E os que aqui vivem,
vivem de forma inatista.
A maio que adormece.
Porque o brado do homem
faleceu no seu peito. Frio
como o coração do diabo.
A maio que desperta.
Porque o sorriso segrega
da alegria e resvala em lágrimas
de chuva ruminante.
A maio que envelhece.
Porque a senilidade se torna
mais luculenta. E os passos
exauridos caem por terra.
A maio que morre.
Pois, assim como tudo que
está sujeito ao evo, também
está sujeito ao extermínio.
Escrevo então no epitáfio
de Maio: Outros de você virão
E neles não haverá mais você.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Larga Piave
Na incompleta hora desses dias turvos,
navegaste em gondolas nos rios que são ruas
de almas esquecidas de outros hecatombes.
Sob a luz de maio de outrora, ainda assim
percorria pelas ladeiras ornadas de pureza
por estações e ferrovias abandonadas
adornadas com folhas de plátano.
Debruçaste sobre a janela enfeitada
de lírios colhidos num campo de concentração:
- O cemitério sem covas!
Tu mantinhas a expressão paralisada e os olhos
bem fechados, atentos à brisa do beijo da manhã,
esperando pelo beijo de bom dia divino,
que também é o beijo de morte
renascendo para morrer nos seios imaculados.
Provaste do pecado do jardim divino, assumiste
a forma humana e sangraste nas terras santas.
Fundira-se com a lama e o suor dos homens,
criaste vergonha do teu próprio corpo e, mesmo
assim andas nua pelos campos a colher rosas
para refrescar novamente tua janela.
Nas tardes de solidão teu desejo lhe fazia companhia,
o desejo de consumo do teu quente gozo.
Empalideceste junto aos pomares no outono,
[junto às sementes do jorro.
Sempre que chovia nos teus lábios frementes, teus olhos
luteolados corriam em direção a luz das velas
que dançavam ao vento dos suspiros.
É a dama da janela que vem lhe servir
um banquete para vossos olhos. Olhos sôfregos
que apenas existem para observar um sonho despertado.
navegaste em gondolas nos rios que são ruas
de almas esquecidas de outros hecatombes.
Sob a luz de maio de outrora, ainda assim
percorria pelas ladeiras ornadas de pureza
por estações e ferrovias abandonadas
adornadas com folhas de plátano.
Debruçaste sobre a janela enfeitada
de lírios colhidos num campo de concentração:
- O cemitério sem covas!
Tu mantinhas a expressão paralisada e os olhos
bem fechados, atentos à brisa do beijo da manhã,
esperando pelo beijo de bom dia divino,
que também é o beijo de morte
renascendo para morrer nos seios imaculados.
Provaste do pecado do jardim divino, assumiste
a forma humana e sangraste nas terras santas.
Fundira-se com a lama e o suor dos homens,
criaste vergonha do teu próprio corpo e, mesmo
assim andas nua pelos campos a colher rosas
para refrescar novamente tua janela.
Nas tardes de solidão teu desejo lhe fazia companhia,
o desejo de consumo do teu quente gozo.
Empalideceste junto aos pomares no outono,
[junto às sementes do jorro.
Sempre que chovia nos teus lábios frementes, teus olhos
luteolados corriam em direção a luz das velas
que dançavam ao vento dos suspiros.
É a dama da janela que vem lhe servir
um banquete para vossos olhos. Olhos sôfregos
que apenas existem para observar um sonho despertado.
sábado, 7 de abril de 2012
Av. Dr. Vicente Salles Guimarães
Não sei se vivo, mas ainda escrevo pra você.
Onde, nas noites que não penso em você,
estou flutuando sobre o céu de pinheiros,
sobre o céu de macieiras nos canteiros
da avenida escura à beira da crua mercê.
O farol do aeroporto me indica algumas
nuvens que andam rasteiras, assim,
roçando o focinho nas sombrias dunas
revelando a mais quente e viva lua.
Caminhadas de membros amputados.
Lembranças de corações partidos.
Amores com cicatrizes - mutilados.
O farol ainda brilha, aviões decolam
aqui nessa cidade com monstros de véus.
As noites não quebram mais a angústia
de viver de esperanças às sombras
de algum dia o fecho de luz iluminar
não as nuvens mas, sim, seu rosto novamente.
Onde, nas noites que não penso em você,
estou flutuando sobre o céu de pinheiros,
sobre o céu de macieiras nos canteiros
da avenida escura à beira da crua mercê.
O farol do aeroporto me indica algumas
nuvens que andam rasteiras, assim,
roçando o focinho nas sombrias dunas
revelando a mais quente e viva lua.
Caminhadas de membros amputados.
Lembranças de corações partidos.
Amores com cicatrizes - mutilados.
O farol ainda brilha, aviões decolam
aqui nessa cidade com monstros de véus.
As noites não quebram mais a angústia
de viver de esperanças às sombras
de algum dia o fecho de luz iluminar
não as nuvens mas, sim, seu rosto novamente.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Numa praia qualquer. Com alguém qualquer.
Figura incansável que foste nascido
do teu choro murmurado ao mortífero
silêncio caído na areia.
Perseguem os homens sob o sol,
cambaleiam todos tontos sob a noite
e cantam envolta da fogueira.
Um esboço leitoso do passado:
Dos rostos que vi e nunca mais verei.
O céu agreste já ia se alaranjando
no horizonte estrelado.
Até ficarem imóveis as folhas das palmeiras.
Até silenciarem todas as sereias.
Até os amores se perderem com mil pegadas na areia.
Até o último sibilo de ternura ou,
enquanto se darem por abatidos
e anestesiados todos os corpos.
O cheiro da maresia ardia as narinas
e o mar banhava alguns troncos
velhos e retorcidos na praia.
Lentamente a derriça se fazia
esflorar o desejo incandesceste
que também queimava em pleno mar.
Logo vi jasmins molhadas de amor.
E a carne queimava por encasar-se no camafeu,
ao longo corpo nu.
A noite vinha e se tornava beliz de olhos
arranjados ao vapor salgado misturado
com areia, e com ela o sabor das conchas,
o sabor do seios arredondados - apertados
com as mãos trêmulas e atadas ao consumo
de todos os desejos naquela hora.
Lentamente as ondas caminhavam para a morte
de seus esforços. E gotas surgiam
da fissão dos troncos. O mar se agitava
embalando o clarão do despertar...
Até as palmeiras retorcerem e secar todo líquido.
Até o vento soprar de volta todo o sal
provocado entre os corpos que a chama consumiu.
Até a maré vir e recolher todos estilhaços.
Até as sereias voltarem com seu canto encantador,
embalando o sono sob a chuva quente
que deslisava cuidadosamente nas curvas
dos nossos corpos nus.
do teu choro murmurado ao mortífero
silêncio caído na areia.
Perseguem os homens sob o sol,
cambaleiam todos tontos sob a noite
e cantam envolta da fogueira.
Um esboço leitoso do passado:
Dos rostos que vi e nunca mais verei.
O céu agreste já ia se alaranjando
no horizonte estrelado.
Até ficarem imóveis as folhas das palmeiras.
Até silenciarem todas as sereias.
Até os amores se perderem com mil pegadas na areia.
Até o último sibilo de ternura ou,
enquanto se darem por abatidos
e anestesiados todos os corpos.
O cheiro da maresia ardia as narinas
e o mar banhava alguns troncos
velhos e retorcidos na praia.
Lentamente a derriça se fazia
esflorar o desejo incandesceste
que também queimava em pleno mar.
Logo vi jasmins molhadas de amor.
E a carne queimava por encasar-se no camafeu,
ao longo corpo nu.
A noite vinha e se tornava beliz de olhos
arranjados ao vapor salgado misturado
com areia, e com ela o sabor das conchas,
o sabor do seios arredondados - apertados
com as mãos trêmulas e atadas ao consumo
de todos os desejos naquela hora.
Lentamente as ondas caminhavam para a morte
de seus esforços. E gotas surgiam
da fissão dos troncos. O mar se agitava
embalando o clarão do despertar...
Até as palmeiras retorcerem e secar todo líquido.
Até o vento soprar de volta todo o sal
provocado entre os corpos que a chama consumiu.
Até a maré vir e recolher todos estilhaços.
Até as sereias voltarem com seu canto encantador,
embalando o sono sob a chuva quente
que deslisava cuidadosamente nas curvas
dos nossos corpos nus.
sexta-feira, 23 de março de 2012
sobre os olhos de Suellen.
Aqui, as manhãs vociferam.
E entre as sombras quebradas da luz turva,
me lembrei que Suellen pediu um poema...
Ah! As mornas manhãs de março ainda tem seu valor.
Ainda me recordo dos rubejantes olhos de Suellen.
Aqueles olhos que gritam em silêncio,
que reverbam o som da alvorada.
Aqueles olhos que brotam
orvalho das madrugadas.
São olhos pequenos os de Suellen ,
e que ficam ainda menores
quando seu sorriso se abre.
Vi seus olhos de perto e, sim Suellen ,
seus olhos me recitam versos.
Versos indizíveis. Versos invisíveis.
Não me permito o surto,
o afago atroz de cometer enganos.
Nem a verdade por debaixo
das montanhas me cativam mais.
Mas posso dizer ao ecumênico infinito
que Suellen é ternura gazil
de luares quentes de março.
Suellen usa uma cajila blusa de cetim azul noite,
lisa e macia, assim como a pele de seu rosto.
Entre palavras espaçadas, meus olhos
descansam no seu rosto, anulando o sofrimento.
Desaparecendo até mesmo o sofrimento
da voz de um enfermo moribundo.
Mirifico novamente seus olhos,
agora eles estão mesclados com a noite.
Uma noite de cor azul-negro.
O negro de seus miúdos olhos
que vagam no ar como dente-de-leão
soprados no vácuo, e lá ficando
à mercê de um vendaval de maravalhas.
Faço uma rápida introspecção.
Agora eles me deixam imoto.
- Ah! seus olhos são um rio de emoções, menina!
Fluem com avidez. Se mexem com eviterno
deslumbramento das cores das algas envoltas
pela água fresca do rio.
Eles (os olhos de Suellen) podem tudo; eles
amam, eles odeiam e também estrangulam os peixes.
São matutinos. Frios ou quentes. E também são bravos.
Rudimentares. Mas, acima de tudo, são olhos
sonhadores com a perspicácia de uma águia em fuga.
Rebusco-me. Alojo-me neles porque foi neles
que me encontrei e, logo, me perdi de vista.
Me recavem um espaço notável na memória.
Então, mais que depressa,
dobro o fio da lembrança
e guardo no coração.
E entre as sombras quebradas da luz turva,
me lembrei que Suellen pediu um poema...
Ah! As mornas manhãs de março ainda tem seu valor.
Ainda me recordo dos rubejantes olhos de Suellen.
Aqueles olhos que gritam em silêncio,
que reverbam o som da alvorada.
Aqueles olhos que brotam
orvalho das madrugadas.
São olhos pequenos os de Suellen ,
e que ficam ainda menores
quando seu sorriso se abre.
Vi seus olhos de perto e, sim Suellen ,
seus olhos me recitam versos.
Versos indizíveis. Versos invisíveis.
Não me permito o surto,
o afago atroz de cometer enganos.
Nem a verdade por debaixo
das montanhas me cativam mais.
Mas posso dizer ao ecumênico infinito
que Suellen é ternura gazil
de luares quentes de março.
Suellen usa uma cajila blusa de cetim azul noite,
lisa e macia, assim como a pele de seu rosto.
Entre palavras espaçadas, meus olhos
descansam no seu rosto, anulando o sofrimento.
Desaparecendo até mesmo o sofrimento
da voz de um enfermo moribundo.
Mirifico novamente seus olhos,
agora eles estão mesclados com a noite.
Uma noite de cor azul-negro.
O negro de seus miúdos olhos
que vagam no ar como dente-de-leão
soprados no vácuo, e lá ficando
à mercê de um vendaval de maravalhas.
Faço uma rápida introspecção.
Agora eles me deixam imoto.
- Ah! seus olhos são um rio de emoções, menina!
Fluem com avidez. Se mexem com eviterno
deslumbramento das cores das algas envoltas
pela água fresca do rio.
Eles (os olhos de Suellen) podem tudo; eles
amam, eles odeiam e também estrangulam os peixes.
São matutinos. Frios ou quentes. E também são bravos.
Rudimentares. Mas, acima de tudo, são olhos
sonhadores com a perspicácia de uma águia em fuga.
Rebusco-me. Alojo-me neles porque foi neles
que me encontrei e, logo, me perdi de vista.
Me recavem um espaço notável na memória.
Então, mais que depressa,
dobro o fio da lembrança
e guardo no coração.
domingo, 18 de março de 2012
micro-crônica
Levo e deixo ir, ao parar, para ver até aonde vai.
Andamos, então, pelas ruas impregnadas de fuligem.
Pausa. A noite caiu e não vimos!
Não pergunte.
Apenas continue a movimentar suas pernas.
Observei pessoas embebidas de álcool.
E, mais alguns passos, senti cheiro de açougue.
Despistei o cheiro de morte imaginando o
perfume mais cheiroso que pude. Junto dele,
me veio boas lembranças. Mas que logo foram
evaporadas. Existia no ar
vários aromas que confundiam o olfato.
Respirei suave e abri os olhos.
E na dobra da esquina, garotas
se divertiam e riam alto com seus
copos cheios de qualquer bebida.
Não tenho destino. Assim como toda fumaça
que procura se assentar nas maçanetas,
no asfalto, no teto de algum túnel.
No ventre de uma grávida.
Aqui, em frente ao espelho vejo o peso da vida
acumulado nas olheiras roxas.
E, ao abrir o guarda-roupas, não existe nada além de
espantalhos pendurados. Tenho na mesa alguns
cigarros fumados, amassados com o amargor da boca.
Imprestáveis bitucas!
As garotas pedem outra rodada.
E riem com menos frequência agora.
Continuo descendo ao longo da rua.
Vejo um ônibus a rodar com luzes apagadas.
O vento arrasta algumas folhas que arranham o passeio.
E outros cães uivam para a escuridão.
Mesmo que trazendo algo ruim do destino,
o regresso pra casa sempre será algo bom.
As manhãs colidirão com as noites num choque que fará
o ser acordar, ou dormir mais que devia. Levando os corpos
num estado de latência e inércia.
Andamos, então, pelas ruas impregnadas de fuligem.
Pausa. A noite caiu e não vimos!
Não pergunte.
Apenas continue a movimentar suas pernas.
Observei pessoas embebidas de álcool.
E, mais alguns passos, senti cheiro de açougue.
Despistei o cheiro de morte imaginando o
perfume mais cheiroso que pude. Junto dele,
me veio boas lembranças. Mas que logo foram
evaporadas. Existia no ar
vários aromas que confundiam o olfato.
Respirei suave e abri os olhos.
E na dobra da esquina, garotas
se divertiam e riam alto com seus
copos cheios de qualquer bebida.
Não tenho destino. Assim como toda fumaça
que procura se assentar nas maçanetas,
no asfalto, no teto de algum túnel.
No ventre de uma grávida.
Aqui, em frente ao espelho vejo o peso da vida
acumulado nas olheiras roxas.
E, ao abrir o guarda-roupas, não existe nada além de
espantalhos pendurados. Tenho na mesa alguns
cigarros fumados, amassados com o amargor da boca.
Imprestáveis bitucas!
As garotas pedem outra rodada.
E riem com menos frequência agora.
Continuo descendo ao longo da rua.
Vejo um ônibus a rodar com luzes apagadas.
O vento arrasta algumas folhas que arranham o passeio.
E outros cães uivam para a escuridão.
Mesmo que trazendo algo ruim do destino,
o regresso pra casa sempre será algo bom.
As manhãs colidirão com as noites num choque que fará
o ser acordar, ou dormir mais que devia. Levando os corpos
num estado de latência e inércia.
sexta-feira, 9 de março de 2012
fragmento de dois mil e nove.
De repente, tudo se faz lágrima
que escorre sobre as cicatrizes
do amor que não é. Mas que um dia
foi o sorriso de estar amando.
De estar triste e dividir a tristeza
que diminuía entre os sorrisos
que surgiam entre um abraço e
várias frases do desalento cotidiano.
Lembro de revelar-te todos os
meus segredos: das coisas que
me deixavam triste às que me
faziam pisar nas nuvens.
Lembro-me de dedicar o dia,
não ao trabalho, mas sim de carregar
comigo teu sorriso, para que no
fim do dia ele se realizasse trazendo
de volta a fagulha que queimava
a carne que fervia e te ansiava.
Pergunto-me se relembrar o passado
é desprezar o presente, se é se esconder
às sombras de uma árvore morta.
Me respondo pra não me sentir vazio,
me respondo pra preencher os dias.
Me reencontro todos dias, parado
escrevendo, pensando e relembrando
tudo sobre dois mil e nove.
Ainda que nos dias nublados
tenhamos que nos preparar
para andar sobre as pedras.
Ainda que no fim da caminhada
eu me fira com os espinhos
de ter que carregar as lembranças.
Ainda que meus braços
nunca mais se encontrarão
após abrirem pra te receber
- Tenho nas palmas o toque
de percorrer-te languidamente.
que escorre sobre as cicatrizes
do amor que não é. Mas que um dia
foi o sorriso de estar amando.
De estar triste e dividir a tristeza
que diminuía entre os sorrisos
que surgiam entre um abraço e
várias frases do desalento cotidiano.
Lembro de revelar-te todos os
meus segredos: das coisas que
me deixavam triste às que me
faziam pisar nas nuvens.
Lembro-me de dedicar o dia,
não ao trabalho, mas sim de carregar
comigo teu sorriso, para que no
fim do dia ele se realizasse trazendo
de volta a fagulha que queimava
a carne que fervia e te ansiava.
Pergunto-me se relembrar o passado
é desprezar o presente, se é se esconder
às sombras de uma árvore morta.
Me respondo pra não me sentir vazio,
me respondo pra preencher os dias.
Me reencontro todos dias, parado
escrevendo, pensando e relembrando
tudo sobre dois mil e nove.
Ainda que nos dias nublados
tenhamos que nos preparar
para andar sobre as pedras.
Ainda que no fim da caminhada
eu me fira com os espinhos
de ter que carregar as lembranças.
Ainda que meus braços
nunca mais se encontrarão
após abrirem pra te receber
- Tenho nas palmas o toque
de percorrer-te languidamente.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Vida e Morte. (soneto)
Germina-te, e torna-te o que queres.
Saluta a vida que te espera, e a viva.
Hoje, amanha e sempre que quiseres.
Pois também morre a estrela degressiva.
Do a sal à espuma, da espuma o vapor.
Do homem viril morre o menino,
revelando sua imensa e vasta dor
dos dias que foram todo seu lancino.
Deseja teu descanso com tanta avidez.
Morre nos braços da garoa, sempre
e toda vez. Renascendo no ventre
dos lírios, das flores campestres. Da impetra.
E cada ciclo recomeça na ferida curada,
que o vapor corroí abrindo-se em chaga.
Saluta a vida que te espera, e a viva.
Hoje, amanha e sempre que quiseres.
Pois também morre a estrela degressiva.
Do a sal à espuma, da espuma o vapor.
Do homem viril morre o menino,
revelando sua imensa e vasta dor
dos dias que foram todo seu lancino.
Deseja teu descanso com tanta avidez.
Morre nos braços da garoa, sempre
e toda vez. Renascendo no ventre
dos lírios, das flores campestres. Da impetra.
E cada ciclo recomeça na ferida curada,
que o vapor corroí abrindo-se em chaga.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Chega de poemas. Chega de dor.
Chega de poemas. Não quero mais fonemas vazios, cheio de falso lirismo.
Quero tardes de sol e piscinas cristalinas. Quero encostar-me à sombra das árvores, e ver o brilho do sol passear pelas ondas na água.
Chega. Não quero sempre ter que ficar com a parte do amor que dói. Não quero amar - o amor destrói.
O amor sonhado é mais emocionante que o amor vivido. Sim, é. Por que? Porque pode-se enfeitá-lo à seu gosto e, a melhor parte - só acaba quando você disser pra acabar. Pode-se, então, levar tudo dele ou nada dele e mesmo assim, ninguém ficará com um buraco no peito.
Amar é, enfadonhamente, exercer o cuidado com o próximo, senão em demasia para ver a carusma se assentar.
Ao entardecer quero poder admirar as mulheres em silêncio absoluto. Sem que elas saibam, sem que ninguém saiba que o canto de sua boca é diferente de todos que já beijei.
Uma vez, uma garota que trabalhava com a mãe num salão de beleza, me disse que quando eu a olhava, sentia que sua alma estava sendo observada. Logo em seguida me entregou uma pequena carta, se virou e foi embora. Pouco tempo depois, se mudou pra outra cidade. Antes disso, lembro-me de quando meu coração não amava - o mundo era um lugar afável, sem dor; os dias eram divertidos e o sol não me incomodava.
Hoje, prefiro as noites. Hoje, prefiro o céu negro. Hoje, prefiro vagar pela madrugada sem destino. Hoje, prefiro a nudez da lua e prefiro a nudez dos corpos trêmulos que foram se desgastando com essa pedra-pome chamada amor. Prefiro copos cheios. Prefiro lugares cheios de corpos vazios. Pois as almas não acompanham mais seus corpos durante a noite - somos uma alcateia triste a vagar pela floresta em busca de comida, em busca de sangue. Em busca de outro corpo sem alma.
E ato lancinante espreita em toda esquina. E em todo beco úmido está pudor, o atrevimento da escoria rejeitada pelo destino - o ser libertino.
Schopenhauer acreditava que não nascemos nem bons nem maus - O que molda o sujeito são suas vontades e desejos, que surgem ao longo da vida inconscientemente. As dores do mundo são despertadas quando decidimos possuir algo, e ao termos em mãos o objeto de desejo, adquirimos também a dor do mundo.
Não quero o mundo, não quero sua dor. Não quero nada. Porém, desejo possuir tudo.
Ainda em busca de um sentido, não sei se encontrá-lo trará paz a toda essa desolação, a essa fartura de poemas cheios de falso lirismo. Mas até lá, quero estar à beira de piscinas cristalinas, à sombra dos ipês no outono.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
para uma garota tão certa sobre sua beleza.
Peço à tua alma que me deixe em paz.
Que o sol que brilha em ti não me acorde jamais.
Onde, de teu sorriso, uma cachoeira límpida emanava.
E o barulho era uma canção velha que soava.
Uma canção que leva pro fundo escuro da alma.
Queria repousar em teu colo como pássaro no ninho.
Por causa do teu sossego, perco meu sono no caminho.
Fazes o mal e, ao mesmo tempo, o bem. E desse conflito
fazes despertar em mim a inocência de uma criança,
que corre em campos planos e verdes. Sob céu azul
com nuvens tão lindas que as formas lembram você.
As palavras saem de tua boca com a doçura do fruto
mais maduro do pomar. Fruto maduro, intocável, puro e
ainda não colhido. Que dorme no teu interior. Que pulsa
teu sangue para os lábios vermelhos e quentes.
De noite, teus lábios me tiraram o sono.
De noite, teu sorriso se abre como aurora de um dia frio.
De noite, tua alma não me deixa em paz. E são essas as
noites de verão que a lua cheia revela sua nudez,
às claras de sua própria luz.
E o fim do dia perturba novamente. Pois saber que estás
sob o mesmo céu, sob o mesmo sol, e não saber que estás
mais sobre todas as coisas, desfaleces os amor,
mas ainda inspiras poemas ao mundo.
Que o sol que brilha em ti não me acorde jamais.
Onde, de teu sorriso, uma cachoeira límpida emanava.
E o barulho era uma canção velha que soava.
Uma canção que leva pro fundo escuro da alma.
Queria repousar em teu colo como pássaro no ninho.
Por causa do teu sossego, perco meu sono no caminho.
Fazes o mal e, ao mesmo tempo, o bem. E desse conflito
fazes despertar em mim a inocência de uma criança,
que corre em campos planos e verdes. Sob céu azul
com nuvens tão lindas que as formas lembram você.
As palavras saem de tua boca com a doçura do fruto
mais maduro do pomar. Fruto maduro, intocável, puro e
ainda não colhido. Que dorme no teu interior. Que pulsa
teu sangue para os lábios vermelhos e quentes.
De noite, teus lábios me tiraram o sono.
De noite, teu sorriso se abre como aurora de um dia frio.
De noite, tua alma não me deixa em paz. E são essas as
noites de verão que a lua cheia revela sua nudez,
às claras de sua própria luz.
E o fim do dia perturba novamente. Pois saber que estás
sob o mesmo céu, sob o mesmo sol, e não saber que estás
mais sobre todas as coisas, desfaleces os amor,
mas ainda inspiras poemas ao mundo.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
o calor do final de janeiro.
Dê-me tu inteira,
tua rosa e seios.
O sangue na veia,
ferve em anseios.
No júbilo fogoso,
vi terras úmidas.
Teu corpo glabro
tinha boca túmida.
Dorme em mim,
teu sono minuano,
minh'aura plúmea,
de teu suor emano.
Dê-me tua seiva,
teu calor, teu puir.
De noite eu aquietar,
de manhã eu sumir.
tua rosa e seios.
O sangue na veia,
ferve em anseios.
No júbilo fogoso,
vi terras úmidas.
Teu corpo glabro
tinha boca túmida.
Dorme em mim,
teu sono minuano,
minh'aura plúmea,
de teu suor emano.
Dê-me tua seiva,
teu calor, teu puir.
De noite eu aquietar,
de manhã eu sumir.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Júlia - Com quem me casei.
Era noite de março e meu avô completava seus 83 anos. Saí um pouco para durante a comemoração, queria ver a rua e também a que altura estava uma árvore que plantara 5 anos mais cedo ali, em frente a casa de meus avós. Caminhei até outro lado da rua e me sentei num banco de parada de ônibus, e ali fiquei assistindo o quão grande aquela árvore estava.
Júlia, a inquilina de meus avós, morava na casa dos fundos junto com outras amigas vindas de outras cidades vizinhas. Nessa noite, em que conheci Júlia, percebi que algo a incomodava, nunca soube exatamente o que era, mas decidi que não queria a ver mais assim, como um dia nublado ameaçando seu futuro, decidi fazê-la saber que o sol brilhava sobre as nuvens cinzas.
Sei que Júlia não se entristece quando o sol some por uns dias. E nem quando a chuva, incessante, a obriga a ficar dentro de casa. E que para ela isso é até necessário nos momentos em que a bússola não sabe mais pra onde apontar. Sei também que Júlia procura em si e nas pessoas algo puro que não pode ser descrito, algo singular - gestos. Gestos únicos que defina cada um. Sei que Júlia decidiu morar nessa cidade para trabalhar e que também planejava estudar veterinária quando as coisas se ajeitassem. Júlia e eu compartilhamos de um ideal em comum: apesar de escolher determinado curso, levando em conta as circunstâncias, temos uma espécie de sonho que seria o pano de fundo da vida. Ela sempre quis entrar pra força aérea brasileira. Júlia já estudou em colégio de freiras a mando dos pais, mas não quis exercer assim que terminasse, então me disse a lição que levara dali: somente os pais, e mais ninguém, deveriam educar seus filhos. Júlia gosta de ir à feira aos domingo de manhã, escolher verduras frescas e um belo peixe para preparar um bom almoço para suas amigas.
Júlia tem ombros altos e retos (o que já lhe garante uma postura atraente). A pele branca e pálida destaca seus enormes olhos castanhos e tristes. Tem algumas tatuagens que cobre parte do braço até o inicio dos seios. Diz não gostar das orelhas e, por isso, as esconde atrás dos cabelos pretos. Mas o que faz de Júlia, e outras garotas, algo inesquecível aos mares da lembrança, é a franja. Não aquela franja cortada de qualquer jeito mal arrumada, mas aquela que arredonda ainda mais os olhos e o rosto, que é feito meia-lua um pouco acima da sobrancelha. É leitora assídua de Nietzsche e gosta de bandas de rock nacional.
Sei, e guardo comigo, as expressões que fazia enquanto procurava, dentro de si, por respostas às minhas perguntas. E hoje vejo que há razões maiores, maiores que a da própria capacidade humana de sentir que existe algo maior. Pois foi Júlia com quem me vi casado no pensamento.
Sei, e guardo comigo, as expressões que fazia enquanto procurava, dentro de si, por respostas às minhas perguntas. E hoje vejo que há razões maiores, maiores que a da própria capacidade humana de sentir que existe algo maior. Pois foi Júlia com quem me vi casado no pensamento.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Vento ao Léu II
C laror que irradia nas
entranhas do crepúsculo
do dia que ainda dorme.
Luz que fere encauma.
Uma névoa fulva flui
com a calma de um
rio de penas mansas.
N as noites de vento
perituro, pequenas
estrelas quentes
flutuam sob o negro.
E piscar pra elas é saber
que algumas ousam
piscar de volta pra nós.
O peso dos olhos abriga
a sombra de um brilho
ao procurar por lugares
altos onde o ar é mais
raro e o silêncio descansa
adormecido em uivos
frios entre as frestas.
O valor de cada manhã
sob o manto diáfano,
meu recomeço, vem em
gotas das chuvas de
Janeiro. E os galhos
arranhando o telhado
anunciam a alvorada.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Fernando Sabino
Quando li seu primeiro livro "No fim tudo dá certo, se não deu é porque não chegou ao fim", a tristeza veio com toda força quando me vi aproximando da contracapa porém, nela havia seus outros títulos, desde então decidi reunir todas suas obras, bem devagar, mais com a intenção de degustar livro por livro do que pelo prazer de vê-los todos juntos.
Fernando Sabino era um bom mineiro de Belo Horizonte, e tinha uma mania que mais tarde se tornou seu estilo literário: estrebuchar os fatos cotidianos ao ponto de não se tornarem repetitivos nem chatos. Pelo contrário: via se graça até em fazer a barba, fumar um cigarro estando gripado, dar entrevistas para adolescentes escolares e até uma época em que chegou a tecnologia e ele teve que migrar de máquina de escrever para o computador. Era um homem incrível que vivia entre a realidade e a fantasia. Suas crônicas serão eternas, e minha visão sobre Minas Gerais permanecerá imortal. A paixão pela bateria do estilo Blues & Jazz, o ódio de ver passarinhos presos em gaiolas me cativaram desde o seu primeiro romance: "O encontro marcado". E entre outras coisas também, como ter tido uma galinha como animal de estimação com o mesmo nome que o seu, por ter sido escoteiro, por ter sido medalhista em natação num clube de sua cidade...Tudo isso fazem dele um pai-herói que não tive.
Fernando Sabino era um bom mineiro de Belo Horizonte, e tinha uma mania que mais tarde se tornou seu estilo literário: estrebuchar os fatos cotidianos ao ponto de não se tornarem repetitivos nem chatos. Pelo contrário: via se graça até em fazer a barba, fumar um cigarro estando gripado, dar entrevistas para adolescentes escolares e até uma época em que chegou a tecnologia e ele teve que migrar de máquina de escrever para o computador. Era um homem incrível que vivia entre a realidade e a fantasia. Suas crônicas serão eternas, e minha visão sobre Minas Gerais permanecerá imortal. A paixão pela bateria do estilo Blues & Jazz, o ódio de ver passarinhos presos em gaiolas me cativaram desde o seu primeiro romance: "O encontro marcado". E entre outras coisas também, como ter tido uma galinha como animal de estimação com o mesmo nome que o seu, por ter sido escoteiro, por ter sido medalhista em natação num clube de sua cidade...Tudo isso fazem dele um pai-herói que não tive.
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