Ouço o frio vento que se curva sobre o escuro,
e logo o silêncio cincina num bruto açoite.
O breu se esfacela, e a noite é mais
escura instantes antes do dia nascer.
Ascende o sol de inverno em bel-prazer,
enxuga o sereno acolhido pelos muros
de tijolo cru. Numa poça d´água alguns
pássaros se banham pra depois alçar largos vôos.
Belas são as brumas das estorças gotas,
transbordando em corações lacerados.
Belas são as manhãs em que uma canção
acorda o dia impermisto porque de natureza prava
somos feitos e seguimos relutantes.
Estive com gente vivida,
e vi que a surpresa da vida
é viver a surpresa que se espreita.
Andei por ruas de terra arada, e vi
os velhos de chapéu em frangalhos,
camisa com manga arregaçada. Arrastando
enxada, enrodilhando mato morto e
fumando cigarro de palha enquanto
assistia o mato virar fumaça amarelada.
Essas terras me trouxe algo que antes não
conhecia, e que agora vejo que sempre
esteve aqui, mas o tempo o deixou em ruínas.
Belos são os manguezais que deixei pra trás.
E agora o passado é turícremo porque um
dos velhos deixa a metade de uma romã
para as mulatas comerem e a outra metade
ele come.
Agora o passado foi jogado ao rio do destino
incerto, porque umas das rendeiras mexe no tacho
de cobre, o sabão de amanhã.
O chão rachado, a terra vermelha, as flores
brancas das mangueiras anunciam frutos
para setembro.
Porque é tudo ciclo e até lá o presente sopeará
em vários tempos:
Tempo de plantar, tempo de colher.
Tempo de encontrar, tempo de perder.
Tempo de apagar, tempo de escrever.
Tempo de matar, tempo de viver.
Tempo de amar, tempo de morrer.