Agosto repousa lento trazendo o sol abaixo,
e as rosas se recolhem como caracóis
porque a luz do poste logo será acesa.
- Como é triste o entardecer...
Levado pelo vento gatuno, o pólen fecundado
é certeza de girassóis da cor de seus cabelos.
Pois tua pele branca é nuvem que me foge aos dedos.
Teu respirar é calor que se desprende do chão
e atravessa a janela na boca da noite.
Teus dedos são ramas que crescem
na face e atingem a pura seiva do gozo.
Teus olhos são lamparinas que aquecem
a alma em estado ectoplasmático.
E tua fala é como arpa tocada pelos
anjos que disseminam a paz no coração.
Num dia sem nuvens olhando pro horizonte,
percebi que os olhos se vidram quando
não encontram nada, e que esta esfera azul
soçobra em luz movediça sob os gerânios na janela.
Terra impávida, polvilho vermelho, pegada de mazama,
isandros amassados e algo me diz nous sommes là.
Sonhos sem foco como lágrima pendurada nos olhos,
são assim que os sonhos me apresentam.
Mas não estes sonhos de figuras definidas:
destes me lembro, ainda bem que distantes,
porque estes costumavam pincelar de volta
a vida pela manhã - mas tento falar
do sonho que de tão obscuro
é também sensual, assim
como as fotografias de Irina Ionesco.
Porque o corpo nu é nata do calor emulsivo da pele,
é expressão muda, é linguagem viva
lida com o toque cego na centelha de um grito
mudo proferido às três da manhã.
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Um comentário:
Nossa, violento esse poema, muito bom mesmo, passo perfeito, sem uma palavra sequer que pudesse ser retirada.
"Porque o corpo nu é nata do calor emulsivo da pele,
é expressão muda, linguagem viva"
O poema não cai em nenhum momento, se suspende e finaliza com muita força. Obra prima. Quanto ao teu comentário sobre Eliot, até traduzi umas partes de forma livre, que coloquei em itálico, do "What the Thunder said", que por sua vez é parte do "Wasteland" do Eliot. Até o título roubei dele, também traduzido. Poesia "moderna" americana tá fazendo minha cabeça, Eliot, Pound, Williams...
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