I.
Lá fora a neve se junta ao redor de um tronco.
A lenha queima aqui dentro me proporcionando calor.
Fogo que estala, e cada faísca despertara de leve meu sono.
Tenho chá numa caneca suada em cima de um livro velho
de Milan Kundera com marcas de bolor na capa.
Vento brando lá fora, e meu espírito se vai entre
as montanhas - se entrelaça nas raízes expostas
e avança levando a sombra, consumindo o escuro
perverso e mórbido. Paisagem branca
de um brilho fosco, a sombra
de final de tarde a esconder atrás de escombros
ao longe soterrados pela neve suja.
Luz que se apaga na boca dos peixes; sou morte
evidente iminente em tingir o claro de preto, o dia
de noite, o doce de amargo e a lágrima de sangue.
II.
Minha terra não é mais minha, e este céu âmbar se serra
em partes por lâminas doces. Mina do pulso o sangue
que agora se aninha na linha da mão e ruboresce
antes que se coagule...
Ao me deitar, fecho os olhos, e ouço o silêncio
cobrir o corpo de sombra turva que se recolhe
e abriga os sonhos mais negros da noite.
E tudo se espalha pelo chão como petróleo bruto,
porque o sangue é frio e percorre como um rio
glacial. Voz da noite grita rouca e percorre o telhado,
a lua range os dentes e as nuvens trespassam
sob o claro como sereno matinal dos dias frios.
Mais uma vez entro em quintais que nunca vi
e que não sei de quem são. Pois a noite
se divide em morte e ressurreição.
As ruas vazias, me dizem que não
é hora de ir. Ainda não, porque as folhas
continuam a dançar a melodia de vento agourento.
A coruja entocada não atreve-se sequer
um voo para chamar a morte no telhado úmido.
Almas choram a melodia triste do urro noturno,
e ainda se faz orvalho do margaridal despetalado.
Não a vida após às três da manhã, e todo sono
e castigo por ter de praticar a morte em poema.
III.
A manha é fosca, o sol brilha mas não vê ninguém.
As brumas do sono ainda pairam sobre a cama,
e logo me vem a turva a visão do momento
que era dor e agora é cadáver.
São pedaços efêmeros dos meus dias, em que
até o refúgio se torna um lugar perigoso de se estar.
Sim, o cais revela ondas violentas onde toda
brisa lhe trazia a saudade da calmaria marítima.
E agora, sempre o agora é algo tenebroso
que salta dos ombros e se transmuta disforme.
Apaga-se a luz, e o formigamento é pertinente
ao ponto de sangrar pelos olhos todo amor
que se apresenta em riste nos pelos
do braço. A manifestação desses dias
negros é algo imolável, e o regrar de uma
rosa falecida, é sim chorar sobre o túmulo
de um morto. Sem cores. Entretanto elas
invadem os olhos como se o sentimento
fosse algo descartável: não quero ver as cores
do céu, não quero ver os brilhos de seus
sorrisos. Rasga o papel em branco
e jogue os pedaços pro ar, pois assim
é a vida: escrever no ar como se fosse
importante, como se alguém conseguisse ler
em todos os níveis estes esboços.
Escurece, entretanto a vida degenerativa.
Ao longe, o arrebol consome almas que
insistem em clamar a carne do próximo.
De doces sonhos é feito a vida, e de amarga
verdade se faz a realidade.
IV.
Tão pouco dura o dia e tudo
é de passageira paisagem vista da janela.
Este céu não era deste azul pálido,
(ou serão meus olhos já mortos em vida?)
E o entardecer rubro-laranja
anuncia o frio da noite. Aquela fresca
cascata secou e tudo que havia ao redor
sucumbiu, nem os pássaros cantam mais lá.
O coração tanto sobe ao teto de lamentos
que a seiva se tornou quebradiça.
Neve que nunca mais cairá de seu rosto,
toque que nunca ei de esquecer, porque
a memória atrevida guarda consigo
as tardes sentados na calçada
fazendo escopo do futuro: uma cozinha
de cerâmica em xadrez, os bolos de cenoura
com cobertura de chocolate feitos com as próprias mãos.
Mesmo em dia quentes, a lúgubre decência
é gelo que degela sobre areia no horizonte.
E este pó circunda o vasto deserto em que
me tornei. O amor pelas pequenas
coisas se preencheu de vazio no buraco
perfurado pela angústia e pela dor.
São passos translúcidos sem ti ao meu lado,
e a tua foto adormece virada de fundos na gaveta.
O que faria sem tua imagem fatiada entre o olhar
e sem teu cheiro mortificado? O que seria da noite
sem o silêncio do escuro e das pétalas caídas?
O que seria do amor sem a ferida de um outro
amor que não se cura?
Nas veredas, um pedido de socorro se proclama no eco
das montanhas pedregosas. E por onde passo
a grama amassada é o passado que piso.
Lembro-me de quando meu coração não amava:
o mundo era mais redondo e o sol não machucava.
Nem mesmo o dançar das folhas dos ipês
era algo triste de se ver.
Lembro-me das quentes noites de sábado
em que o cheiro da feira supurava o perfume
das barracas e que sua mão se dava a minha.
Se algo faz alguém vivo, é ser memorado
como algo bom, é ter a escrita transbordada
por um sentimento queima como o sol.
Tão pouco dura o dia e tudo
é de passageira paisagem vista da janela.
Este céu não era deste azul pálido,
(ou serão meus olhos já mortos em vida?)
E o entardecer rubro-laranja
anuncia o frio da noite. Aquela fresca
cascata secou e tudo que havia ao redor
sucumbiu, nem os pássaros cantam mais lá.
O coração tanto sobe ao teto de lamentos
que a seiva se tornou quebradiça.
Neve que nunca mais cairá de seu rosto,
toque que nunca ei de esquecer, porque
a memória atrevida guarda consigo
as tardes sentados na calçada
fazendo escopo do futuro: uma cozinha
de cerâmica em xadrez, os bolos de cenoura
com cobertura de chocolate feitos com as próprias mãos.
Mesmo em dia quentes, a lúgubre decência
é gelo que degela sobre areia no horizonte.
E este pó circunda o vasto deserto em que
me tornei. O amor pelas pequenas
coisas se preencheu de vazio no buraco
perfurado pela angústia e pela dor.
São passos translúcidos sem ti ao meu lado,
e a tua foto adormece virada de fundos na gaveta.
O que faria sem tua imagem fatiada entre o olhar
e sem teu cheiro mortificado? O que seria da noite
sem o silêncio do escuro e das pétalas caídas?
O que seria do amor sem a ferida de um outro
amor que não se cura?
Nas veredas, um pedido de socorro se proclama no eco
das montanhas pedregosas. E por onde passo
a grama amassada é o passado que piso.
Lembro-me de quando meu coração não amava:
o mundo era mais redondo e o sol não machucava.
Nem mesmo o dançar das folhas dos ipês
era algo triste de se ver.
Lembro-me das quentes noites de sábado
em que o cheiro da feira supurava o perfume
das barracas e que sua mão se dava a minha.
Se algo faz alguém vivo, é ser memorado
como algo bom, é ter a escrita transbordada
por um sentimento queima como o sol.
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