terça-feira, 27 de agosto de 2013

poema



Incumbido de carregar o próprio peso,
visto-me no barco de carpintaria.
Visto-me de pétalas negras que cultivei com ódio,
com rancor da fúnebre tristeza do carvalho.

O mundo com seu próprio peso já me basta.
Já me basta esta vida de cacos e estilhaços
que cortaram outros.
Já me basta o dia do amanha, o dia que passei
sem ter algo...algo que tive de matar por dentro;
já me basta o pólen derramado não fecundado.

Vazio. Profundos acordes de mar calmo.
Sem tempestades de atordoamento.
Luz sem brilho, sombra sem ser.
Correnteza sem fluir.
Salmões sem salto.

Sangue sem coração,
coração sem batida.

Incumbido de remar
por um mar sem cais.
O naufragar é o silêncio
pelo por do sol que se esconde
atrás do horizonte ao entardecer.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sobre Ela.


As tardes em que vi o rasante de uma gaivota cortar o vento,
poderia ter sido o fim, mas sabemos que era o começo.
Sua asa morna flutuava sobre o calejante mártir do céu vindouro.
A sombra da altura vestida com segredos sempre claros,
como uma fria manhã de Maio, me vêm num manto diáfano.

Visões de um mundo arquitetado ganharam suas formas,
todas esculpidas em curvas enrijecidas com possibilidades.
Faz de tais tardes encaloradas suor, o vosso combustível
e, da vela tarrada, o regozijo de queimar na ardência do sol.

Queira deitar-te em belos lábios o canto de uma palavra gemida,
de um urro alavancado com movimentos macios pelo corpo óleo.
...minhas palmas formaram ventosas que invadiram teus poros,
meus sangue, meu vinho, sorvera toda embriaguez dos desejos.

Em cada toque, um choque. Em cada som, um trovão...
Em cada vão o silêncio, e em cada silêncio a acensão;
de romper todas berreiras invisíveis criadas de almas
jovens que sonham ser, acima do invólucro derradeiro,
o que há tempos corrói a autarquia sociável, felizes.

À tão pouco de mim, a vidraça chorosa em orvalho
das noites idas de umidade e ânsias...
Ardor de vigília e o frescor de inúmeras cervejas.

Diante de mim, teus lábios fechados receberam meu brilho,
e a luz condensada do lençol estendido imóvel
nos cobria com seu ambiental e raso escuro.

Deus podia ouvir-nos rindo. Ah! Ele podia sim!
Rimos com os corpos e rimos com vontade.
Com vontade de afundar num mar negro sem dar pé.
Com a violência de trazer ao tato a realização dos gozos
que começaram com o simples bebericar da água que
havia uma singela placa acima: "proibido beber-me".