terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Júlia - Com quem me casei.



Era noite de março e meu avô completava seus 83 anos. Saí um pouco para durante a comemoração, queria ver a rua e também a que altura estava uma árvore que plantara 5 anos mais cedo ali, em frente a casa de meus avós. Caminhei até outro lado da rua e me sentei num banco de parada de ônibus, e ali fiquei assistindo o quão grande aquela árvore estava.

Júlia, a inquilina de meus avós, morava na casa dos fundos junto com outras amigas vindas de outras cidades vizinhas. Nessa noite, em que conheci Júlia, percebi que algo a incomodava, nunca soube exatamente o que era, mas decidi que não queria a ver mais assim, como um dia nublado ameaçando seu futuro, decidi fazê-la saber que o sol brilhava sobre as nuvens cinzas.

Sei que Júlia não se entristece quando o sol some por uns dias. E nem quando a chuva, incessante, a obriga a ficar dentro de casa. E que para ela isso é até necessário nos momentos em que a bússola não sabe mais pra onde apontar. Sei também que Júlia procura em si e nas pessoas algo puro que não pode ser descrito, algo singular - gestos. Gestos únicos que defina cada um. Sei que Júlia decidiu morar nessa cidade para trabalhar  e que também planejava estudar veterinária quando as coisas se ajeitassem. Júlia e eu compartilhamos de um ideal em comum: apesar de escolher determinado curso, levando em conta as circunstâncias, temos uma espécie de sonho que seria o pano de fundo da vida. Ela sempre quis entrar pra força aérea brasileira. Júlia já estudou em colégio de freiras a mando dos pais, mas não quis exercer assim que terminasse, então me disse a lição que levara dali: somente os pais, e mais ninguém, deveriam educar seus filhos. Júlia gosta de ir à feira aos domingo de manhã, escolher verduras frescas e um belo peixe para preparar um bom almoço para suas amigas.

Júlia tem ombros altos e retos (o que já lhe garante uma postura atraente). A pele branca e pálida destaca seus enormes olhos castanhos e tristes. Tem algumas tatuagens que cobre parte do braço até o inicio dos seios. Diz não gostar das orelhas e, por isso, as esconde atrás dos cabelos pretos. Mas o que faz de Júlia, e outras garotas, algo inesquecível aos mares da lembrança, é a franja. Não aquela franja cortada de qualquer jeito mal arrumada, mas aquela que arredonda ainda mais os olhos e o rosto, que é feito meia-lua um pouco acima da sobrancelha. É leitora assídua de Nietzsche e gosta de bandas de rock nacional.
Sei, e guardo comigo, as expressões que fazia enquanto procurava, dentro de si, por respostas às minhas perguntas. E hoje vejo que há razões maiores, maiores que a da própria capacidade humana de sentir que existe algo maior. Pois foi Júlia com quem me vi casado no pensamento.

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