sexta-feira, 1 de junho de 2012

Quarto vazio, página obsedada


Tão longe leva as cinzas a muito tempo assentadas do verão adormecido. Calçadas vazias e corroídas do vento, vão se as marcas esfoliadas dos sapatos. Varre as ruas lúgubres do centro sem paciência. Nas paisagens costeiras o vento esculpe rochedos como artesão renomado. Carinhosamente leva e traz a solidão e silencia os ouvidos da alma em tom divino de sol nascendo. Imparcial e mortal, vagueia na mansidão evocando a neblina sobre os lagos frios. Sorrateiro e misterioso, companheiro de viajantes noturnos e a quem se interessa em aproveitar sua própria companhia. São tempos secos e quentes que se ascendem em abraços matinais, e suas corriqueiras complicações respiratórias. Vi, com certo ardor nos olhos, o sol se elevar em arrepios trazidos por fios de gelo na essência da pele, quente e pulsante que respira sangue e inspira aromas florais. Ao ímpeto dos corações em brasa espalhadas entre paredes sujas, escorre da boca antes seca, o sangue negro borbulhante. Junto aos pés sofridos, morre a glória de lavrar a relva morta onde sopram os ventos alísios. Nas mãos, o labor da colheita mal sucedida. Ainda assim se estendem na ternura dum gesto de adeus. São essas as mãos que esfregam a terra quebradiça e se propõe a limpar o suor do rosto. Corpos derradeiros perecem antes do nascer do dia, a luz mortiça briha em rubro e castanho, revelando peixes a boiar. Açoitando, o vento se esgueira entre os sonhos recobrindo as casas. Sombra penumbrante e acuada. Atormenta o corpo prevalecendo na noite o desfoque borrado do dia. Estio permeado entra uma lavoura e outra. E o cão não mateja mais com seu dono no inverno. Seus dias se tornaram insossos, e digo que pobre é a criatura que perdeu a fé.
Tão longe, e tão incrédula se vai a poeira do verão a muito tempo derruído. Feito noite mal dormida ao despertar de sensações espasmódicas. Noite de sonhos temerosos, de encontrar os olhos dos quais tenho fugido, os olhos  dos quais fecho os meus para não vê-los novamente e reaprender que o amor ainda existe e que vive ali naqueles olhos que refletem como lâmina ao sol. Como um artefato fora dele se pendura esta voz branca. Meu coração é meu refúgio, minha imagem está destroçada e o vento continua a roer os ossos. Não esculpe-me como os grandes rochedos das costas; nessa perspectiva, seria como empalhar um corpo para seu sepultamento num dia de um feriado. Lenta e cortante, desliza pela face o brilho das manhãs gélidas, e o retorno ao espelho é uma atitude impiedosa da sustentação da boa aparência.

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