sábado, 7 de junho de 2014

No céu há bandeiras


No céu há bandeiras e fitas das quais a
depauperação não me fascinam mais.
No céu não há nuvens que cegam
o olhar perdido de meus idílios.
Há o manto do dia que se descobre
para o descobrirmos a cada manhã.
Dias nimbosos flutuam com o sereno
pelo raiar da luz desfraldada.
Mais uma criança a parturejar junto
ao momento do corpo esfriar.
Realçando o roseiral triste com
pétalas cobertas de orvalho.

Bandeiras redondas voam ao sabor do vento
e suas sombras desformam rostos. 
Vejo a grima em seus olhos a
brilhar como duas estrelas na estiolada noite quente.
A serenidade de seus sorrisos, agora orbitam meus sonhos.


terça-feira, 13 de maio de 2014

A luz de Maio fere

Entre o ar denso, o peso de meus pensamentos se projetam nas paredes.
A noite não dorme e cães não se calam. O nome de alguns mortos me vêm a memória. Nomes que recebi acompanho de olhares pesarosos, nomes que rogam ao meu. E cá estou, me acordando pra eles por me chamarem tão alto. Onde alguns gritam ao fundo com o desespero de alma sendo mandada pro inferno e relutando contra a ira divina rogando seu perdão sob chicotadas flamejantes nas costas. Mas estes pobres são silenciados em seguida. Não consigo identificar pelo que, mas fazem se calar.
Não se silencie, não arranque seu último suspiro por mim. Grite com toda angústia que puder passar pelo seu corpo e se livre disso de uma vez por todas, se conseguir pobre alma.

Os gatos passeiam no topo do muro. Estas criaturas de outro plano que me encaram sem motivo aparente, com esses olhos vidrados fixos e luminantes. Uma lata de lixo tomba lá na rua.

Entre um cigarro e outro, vou percorrendo páginas do livro O Cemitério de Praga enquanto meus olhos pesam; não sei se de sono ou dopagem sóbria.
Já é tarde, tenho que trabalhar. Penso em abrir um vinho pra pegar na mão do sono e trazê-lo até mim e o velho gosto amargo da gripe misturada com a fumaça do cigarro me vem a boca, isso incomoda um pouco (cadê a merda da minha cerveja? melhor conferir a geladeira antes de me sentar pra atualizar o blog).

De repente o sono some e gosto dessa sensação; é como acordar de manhã descansado, disposto cheio de energia e cabeça vazia, mas com a diferença que ainda nem dormi. e esses gatos me fazem a companhia da qual não preciso, esses gatos nem sabem que estou aqui. E são eles que não precisam de mim no final das contas.

O hábito de tomar cerveja sozinho é triste e empolgante. Sim é um hábito, não ligo pra tristeza quando abro uma garrafa. Assim como não ligo para esses malditos gatos que me encaram parados na porta da sala me vendo falar mal deles - criaturas de outro plano! Vão revirar os pensamentos de outro!

Anoite a cidade é coberta dessa poeira estiolada e um ar seco de machucar a respiração. O frio desce suave pelo telhado e entra pelos tijolos até encontrar cobertores e peles. É possível ver a bruma da madrugada passar pela luz de postes e umedecer as janelas. Vago em instantes curtos sobre o amanhecer novamente tanto que já não ligo se já são meia noite ou meio dia mais. Mas sei que é tarde da noite por que nada responde a nenhum estímulo e alguns galos se arriscam a cantar timidamente antes da uma da manhã.

Ascendo um cigarro. Dou um gole longo e me lembro da rotina em que me coloquei enquanto sopro a fumaça pelo nariz. Abro a boca e dou um bocejo preguiçoso...é hora de ir. É hora de aceitar as taxas, faturas e boletos que criei. É hora de morrer pra poder viver novamente.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Acerca das manhãs de domingo.


Vejo o dia se esvanecer, embora tenha procurado na memória a latência de uma emoção que por segundos tive, o dia se evapora como fumaça de chaminé. Descompõem-se os risos, desnuda o inaudito olhar de sono sobre a vida enquanto a melodia cessa para dar espaço ao silêncio. A tarde punícea vem lhe beijar o mento, e beija tão pueril, tão suave como folha que aterrissa sobre a grama
em fim de longos invernos. E se vai, mórbida e contente por lhe roubar vida.
O dia se esvanece. A lembrança é uma sala vazia e as memórias são paredes brancas. Não entra luz e não há poder de albedo que as tire dali. O silêncio asfixia e os olhos embotados cosem o caminho à loucura. O céu se sela diante do dia e espalha seu negro pelas sanjas.
Tão perene molha a fumaça. E o cheiro de rosas invade a tarde trazendo um teor tépido sutilmente indolor aos corpos em repouso. A noite invoca as estrelas a brilharem sobre poças d'águas.
Vultos caminham pelas ruas, sombras se escondem de olhares. Tudo está calmo agora - assim como sempre acontece depois de qualquer chuva. E a preguiça de recomeçar é como uma inércia que traz a água do próprio céu.
Vejo o fim se ir como peixe que foge pro fundo do rio e para o fundo todas as coisas vão. E lá permanecem para sempre - lembranças, memorias:
a cadeira de vime,
o sol sobre o trigal,
o raivento que estufa a cortina,
a fumaça branca que sai do mato,
o cheiro do mato queimado,
o focinho do cachorro,
o susto no gato,
meus tocos de cigarro,
meu beijo gripado
e também meu adeus.
Ficam por lá, rameados, enlameados.
Abrigo dos peixes, abrigo do céu.