terça-feira, 14 de julho de 2015

renivere


dai ao tempo o tanto necessário
de acalentar o torvelinho cessar.
esqueça-te de mim e meu aniversário
que fiquemos assim--como sol e lua
dois estranhos que encontram na rua
almas jamais entrelaçadas
dai-ao naufrágio o tempo de alcançar
em queda livre e lenta o fundo do mar

terça-feira, 5 de maio de 2015

No caminho há algo puro esperando



abri meus olhos
para mais uma vez
ver o lampejo de luz num
oceano de escuridão.
a luz turva e distorcida
rasgava-me a visão.
dias anestesiados,
semanas de afazia.

medo da noite,
do próximo passo
sem fome de vida.

desprazer de ver as folhas sendo
levadas pelo vento gelado de outono.
                        ...

a morte havia chegado mais cedo.
não a morte de cessar o pulso,
mas a morte de cessar a vida
da vontade, do querer e do desejo.
faca sem fio. corpo criando peso.

ruínas são belas por si só!
mas seria belo um coração em ruínas?
fluir em sangue negro
incapaz de sentir nada
nem mesmo ódio,
ou o ódio de si mesmo.

há algo puro esperando no caminho.
o velho torvelinho se agita
girando no redemoinho de terra.
os olhos embotados ganham cores.
como o céu ganha o arco-íris após a chuva.

mas há algo puro esperando no caminho.
há vida após o dia, há o azul do céu.
ainda canta os pássaros neste ninho
porque a luz brilha ao levantar teu véu.
dizem que para não se sentir sozinho,
às vezes é preciso revirar teu mausoléu

quando abri os olhos
abri também as janelas,
portas, portões e portelas.
não quero esse ar carregado
de pesares passados
não quero bloquear
meu caminho com horas
desperdiçadas de lamúrias
assombrações ou segredos.

quando abri meu sorriso,
abri também o teu sorriso.
abri as mangueiras, o forno e a pia.
abri as mãos e abracei meu dia.
abri comportas e também abri fogo.
descansei no teu colo
aninhei-me em ti.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Onde estará você, B. Galdino?





Não sei se às vezes estou sóbrio ou embriagado.
Tanto faz.
Já não sei mais se é quarta-feira ou sábado.
Não me importo.
É tudo quente tanto que adormece e faz delirar.
O vento já não sopra mais ao meu favor.
Estou velho e cansado...na verdade mais
cansado do que velho, mas é justamente
esse cansaço que deixa o novo velho.
Enfim, tudo se encontra num balanço mediano.
Tudo é calmo no sono. Nem sonho nem pulso.
Só escuro, silêncio e solidão. Como deveria ser.
Sem retorno ou esperança do dia seguinte.
Você só está vivo porque não tem poder
para parar de fazer seu coração bater.
E mesmo assim continua acordando.
Acordando pra ver pessoas e a cidade.
A cidade, uma conexão dos humanos.
A invenção da civilização e seus valores.
Quem somos ali no meio?
Uma parcela tão pequena, quase insignificante.
Tanto faz. 
É o pensamento condensado em luz turva.
Não há como recobrar a memória.
O delírio infestado de loucura está no beijo.
Embriagado é melhor. Mas isso não importa mais.
É impossível fugir quando se está vivo.
Ao acordar, tudo volta do enjoo ao vômito.
Mas quem se importa? Eu não me importo.
Não mais.
Tanto faz.