terça-feira, 23 de outubro de 2012
poema
O cemitério de libélulas
Uma lugar triste, o cemitério de libélulas.
Era cercado de medronheiro nascidos mortos,
entretanto, havia no centro das tumbas uma flor
que vivia a vida de tudo que pulsava e tinha cor.
Tal flor, com desprimoradas pétalas negras,
vivia de luto velando a morte ao seu redor.
Os cabelos do sol não alcançavam ali,
e o uivo do vento entoava o amargor.
Uma a uma, libélulas zumbiam rumo à
luz negra que surgia das entranhas da terra
como armadilha de doce alimento.
E ali mesmo as consumia. E ali mesmo
o escuro ganhava força.
Porque a vida de um inseto é curta.
E o sol arde nas asas de um véu poroso,
pois a vida e a morte tem sede dos eloquentes
e rufantes devaneios dos pequenos seres que
são consumidos pelo primeiro indicio
de vida após a sua própria vida.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
poema (para Wallace Stevens)
Um coração de paredes inerves e glabras,
para a luz penetrar e com afinco não sofrer o albedo,
e que homem purgaria descascar seu próprio peito
e entregar-se em vivalma para corpos desalmados?
A tarde continua a debruçar no desgosto
vazio incompleto da sensação de nada cumprido.
Por que, então, o oco se completa quando é agosto,
de rosas cheirosas, de dias claros e céu colorido?
Voo em silêncio até o rosto laureado que alcancei,
deixei ir, e não vi mais entre as ventarias brumadas.
O amor, emagrecido, rubígine e em bronze pó se torna.
Porque até a flor mais bela morre um dia e até o dia
mais colorido de agosto se acinzenta. E se esgota
os corpos após o amor. E se recolhe para despetalar,
no frio de inverno, a rosa que foi dada com frescor.
Um coração que foi colocado num corpo errado,
uma palavra proferida na hora certa, uma alma
suja em lama que conflita com espírito imaculado.
Meu peito é gaiola de borboletas que não
voam ao ver a luz do dia. Não reagem em
qualquer miséria no som do vento, no som de umas
poucas folhas provocadas por elas mesmas.
As horas são retalhos e em grandes pedaços são
os dias. Manta costurada por gestos e expressões,
E mulheres rendam e bordam para ornar o sepulcro
de um jazido escuro. E finda com espada brilhante
cravada na terra sobre sete palmos do coração,
alma e espírito libertos da gaiola.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
para a garota do submarino amarelo
Límpido e claro como fumaça de chaminé,
vapor que sobe e desce em dias de céu claro.
Lento e viscoso como sangue que flui do corte
delicado. Assim é teu rosto: claro de veias verdes.
Queria poder encontrar-te em estreitos corredores,
onde aquele rápido momento se faz eterno.
Ver teu sorriso passando, como paisagem
de janela, me fazer guardá-lo como promessa de vida.
Lancino, o dia e a noite, por mares de teu corpo,
sem a maresia dos luares fulgurosos, e de rompante
escorregar nos teus lábio de sorriso cerrado.
Poder colher-te, faminto, flores da primavera e oferecer-lhe
todo o perfume. Para que as rosas aprendam o sublime
aroma que tu exalas na raiar dos dias de sóis tenros.
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