sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Viagem.

Tantas vezes o sol coube no meu olho,
tão arremediado de olhos crustados no rosto
e tão doído por alcançar tão alto.
Lá embaixo, entre as folhas de bananeira molhada, se via
o mirante saco da ribeira e seus inúmeros barcos brancos.
Alguns a vela outros motorizados e poucos a vapor.
Entre o chiado da chuva, fragmentos de rochas pela rodovia.
E paredões infindáveis. Era assim: se a rodovia precisasse
passar por aqui, e nesse caminho havia uma montanha,
eles a enchiam de dinamite e explodiam sem qualquer remorso.
Algumas rochas, recém rachadas ao meio, tinham o brilho tão
puro, tão claro que parecia um espelho colorido, às vezes verde,
às vezes roxo.

O ruído do mar, tentando alcançar a praia em braçadas suicidas,
era tão constante como a chuva de dezembro.
Um chiado de refrigerante liberando o gás, ou algo assim.
Mas que, com dois dias passados, se tornava parte do silêncio
e também parte do sabor do salgado oxigênio.

É estranho, e ao mesmo tempo triste, despertar
sob um teto que ainda não me acostumei.
O primeiro pensamento, nativo de qualquer
sã mente: estou longe de casa.
O segundo vem acompanho do nome do lugar.

Uma fumaça cinza paira no pico das montanhas
me dando a impressão de estarmos perto
do céu. Um segundo céu se forma, um sub-céu,
um falso e vaporoso céu, um céu carregado de
pesares por se rastejar sob o verdadeiro Céu,
um céu que se parece mais com o céu do inferno
do que o céu do paraíso.
Estamos longe do paraíso.
E mais longe do azul que cobria a maioria de meus dias.

Manhãs úmidas de pouca luz, 
e nenhuma brecha nesse maldito tapete flutuante cinza.
A cidade se desenrola pelo litoral-norte a fora
e ela não passa de um enorme retângulo cheio de curvas.
Prédio, pousadas, hotéis, condomínios e casas...
tudo intercalado entre imobiliárias e mercados locais.
Ladeiras pedregosas e mini-postes de ferro
denunciam o centro da cidade. E o esqueleto de uma
baleia jubarte é orgulhosamente exibido no alto de uma
praça, com um placa do seu lado dizendo que a espécie
foi salva de extinção...bom, aquela ossada não.

O trânsito é lento e o fluxo de carros se
mistura facilmente com o de pedestres, ora
com câmeras fotográficas, ora com pranchas de surf.
É possível facilmente distinguir turista de quem é morador local.
Porque somos tão iguais, mas tão diferentes em detalhes tão insensíveis?
Como, de amostra, a forma de carregar uma prancha de surfar?
Ou a forma de andar na areia? Ou até mesmo ao dar bom dia?

O fato é que a cultura de criação continua a mandar em você mesmo depois de adulto e pode te companhar até seu túmulo. Se ela foi moldada no seu melhor por alguém antes de te passar, isso com certeza acontecerá.

Com a pressão causada pela queda de altitude, é natural
que os ouvidos se ensurdeçam. Causando, às vezes,
a impressão de morte seguida pela sonolência.
Morte em morte por assim dizer. Quando vejo a água
escorrer pela vala que canaliza a água para pequenos
riachos, penso: Morte de uma vida velha, sem ação.
Morte e quebra de uma linha reta. Morte de um pedaço
do mundo, o pedaço que foi devorado pelos olhos de um
curioso. De alguém que se cansou do sol. Do incomodante
saber onde tudo está, onde tudo se encontra, onde todos estão,
o que eles falarão, o que eles farão. De alguém que se cansou deste
tempero, destes valores, desta ordem, deste lugar em particular.

A ida reverba a euforia jovem, a excitação de entrar em terras desconhecidas.
De dias longe de casa, longe da cidade em que nasceram.
Longe do costume de saber onde tudo está localizado.
Longe de rostos conhecidos e mais perto sotaques
diferentes. Perto de outros sorrisos.
Perto de outro mundo, outras cores e sabores.

Essa é a ida
A ida é o saber do retorno.
É saber que, no fim, os olhos queimarão por dentro.
É também saber que, dos olhos que agora carregam
o cinza, não caberá mais o sol a brilhar.