sábado, 28 de abril de 2012

meu empacho (ou o mês de maio)





A maio que se inicia.
Porque, dentre todos os meses,
maio traz consigo a polidez
das manhas mais frias e agudas.
A maio que cresce.
Porque o barbante se desvincilha
descobrindo a pálida tez de
seu próprio brilho.
A maio que aprende.
Porque o sol crucita
às margens do corpo batido
lancetando a carne crua.
A maio que grita.
Porque a luz de maio culmina
e os pássaros não gorjeiam
mais cantos alegres.
A maio que se cala.
Porque a terra se faz improlífera
e inabitável. E os que aqui vivem,
vivem de forma inatista.
A maio que adormece.
Porque o brado do homem
faleceu no seu peito. Frio
como o coração do diabo.
A maio que desperta.
Porque o sorriso segrega
da alegria e resvala em lágrimas
de chuva ruminante.
A maio que envelhece.
Porque a senilidade se torna
mais luculenta. E os passos
exauridos caem por terra.
A maio que morre.
Pois, assim como tudo que
está sujeito ao evo, também
está sujeito ao extermínio.
 Escrevo então no epitáfio
de Maio: Outros de você virão
E neles não haverá mais você.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Larga Piave

Na incompleta hora desses dias turvos,
navegaste em gondolas nos rios que são ruas
de almas esquecidas de outros hecatombes.
Sob a luz de maio de outrora, ainda assim
percorria pelas ladeiras ornadas de pureza
por estações e ferrovias abandonadas
adornadas com folhas de plátano.
Debruçaste sobre a janela enfeitada
de lírios colhidos num campo de concentração:
 - O cemitério sem covas!
Tu mantinhas a expressão paralisada e os olhos
bem fechados, atentos à brisa do beijo da manhã,
esperando pelo beijo de bom dia divino,
que também é o beijo de morte
renascendo para morrer nos seios imaculados.
Provaste do pecado do jardim divino, assumiste
a forma humana e sangraste nas terras santas.
Fundira-se com a lama e o suor dos homens,
criaste vergonha do teu próprio corpo e, mesmo
assim andas nua pelos campos a colher rosas
para refrescar novamente tua janela.
Nas tardes de solidão teu desejo lhe fazia companhia,
o desejo de consumo do teu quente gozo.
Empalideceste junto aos pomares no outono,
                                                     [junto às sementes do jorro.
Sempre que chovia nos teus lábios frementes, teus olhos
luteolados corriam em direção a luz das velas
que dançavam ao vento dos suspiros.
É a dama da janela que vem lhe servir
um banquete para vossos olhos. Olhos sôfregos
que apenas existem para observar um sonho despertado.

sábado, 7 de abril de 2012

Av. Dr. Vicente Salles Guimarães

Não sei se vivo, mas ainda escrevo pra você.


Onde, nas noites que não penso em você,
estou flutuando sobre o céu de pinheiros,
sobre o céu de macieiras nos canteiros
da avenida escura à beira da crua mercê.

O farol do aeroporto me indica algumas
nuvens que andam rasteiras, assim,
roçando o focinho nas sombrias dunas
revelando a mais quente e viva lua.

Caminhadas de membros amputados.
Lembranças de corações partidos.
Amores com cicatrizes - mutilados.

O farol ainda brilha, aviões decolam
aqui nessa cidade com monstros de véus.
As noites não quebram mais a angústia

de viver de esperanças às sombras
de algum dia o fecho de luz iluminar
não as nuvens mas, sim, seu rosto novamente.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Numa praia qualquer. Com alguém qualquer.

Figura incansável que foste nascido
do teu choro murmurado ao mortífero
silêncio caído na areia.
Perseguem os homens sob o sol,
cambaleiam todos tontos sob a noite
e cantam envolta da fogueira.

Um esboço leitoso do passado:
Dos rostos que vi e nunca mais verei.
O céu agreste já ia se alaranjando
no horizonte estrelado.
Até ficarem imóveis as folhas das palmeiras.
Até silenciarem todas as sereias.
Até os amores se perderem com mil pegadas na areia.
Até o último sibilo de ternura ou,
enquanto se darem por abatidos
e anestesiados todos os corpos.

O cheiro da maresia ardia as narinas
e o mar banhava alguns troncos
velhos e retorcidos na praia.
Lentamente a derriça se fazia
esflorar o desejo incandesceste
que também queimava em pleno mar.
Logo vi jasmins molhadas de amor.
E a carne queimava por encasar-se no camafeu,
ao longo corpo nu.

A noite vinha e se tornava beliz de olhos
arranjados ao vapor salgado misturado
com areia, e com ela o sabor das conchas,
o sabor do seios arredondados - apertados
com as mãos trêmulas e atadas ao consumo
de todos os desejos naquela hora.

Lentamente as ondas caminhavam para a morte
de seus esforços. E gotas surgiam
da fissão dos troncos. O mar se agitava
embalando o clarão do despertar...
Até as palmeiras retorcerem e secar todo líquido.
Até o vento soprar de volta todo o sal
provocado entre os corpos que a chama consumiu.
Até a maré vir e recolher todos estilhaços.
Até as sereias voltarem com seu canto encantador,
embalando o sono sob a chuva quente
que deslisava cuidadosamente nas curvas
dos nossos corpos nus.