Meu coração ainda pulsa
a vida ainda esguicha vitalidade
ainda ando pelos mesmos becos sombrios
na ascendência acolita do desejo reprimido.
Eu morro todas as manhãs;
entorpo da cristalecência dos âmagos vindouros.
Devo criar uma expectativa sobre algo bom?
Nesse cálice, bebi o vinho e agora bato as cinzas.
Reduzi a bílis no amargo mais encapsulado que consegui,
estou onde queria estar, mas vivo onde meu pulso vive e
sangra direto no cálice desse amargor que não me larga.
Quero o que o rubro dos dias me guiam querer,
submergir ao dulçor desse mundo, mundano mundo.
Saborear a doçura das pétalas numa manhã de
primavera e descer a escada do orgulho ao menos uma vez.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Dance no amargor
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
Luana
As noites eram tenras e frias.
As caminhadas a ermos sobre o piso gelado.
Nada esquentava o coração modorrento.
Dias repetidos e sem graça.
Não havia luz, não havia acenos...
Nem o de uma criança de dentro do ônibus
Somente a carne doída de somente ser.
Eis que vigília de tais olhos
que procuravam luz entre a poeira,
encontram paz...a consciência morna
trazia tranquilidade ao portador do terror.
Nos calmos reclino de cabeça
no arejar de ventos no cabelo...
Era revelador o descobrimento da vida.
Da vida após a morte.
De morte entende-se:
É perder a esperança em sã
consciência e consumar
o ato de abrir a mão
em plena felicidade.
terça-feira, 14 de julho de 2015
renivere
dai ao tempo o tanto necessário
de acalentar o torvelinho cessar.
esqueça-te de mim e meu aniversário
que fiquemos assim--como sol e lua
dois estranhos que encontram na rua
almas jamais entrelaçadas
dai-ao naufrágio o tempo de alcançar
em queda livre e lenta o fundo do mar
em queda livre e lenta o fundo do mar
terça-feira, 5 de maio de 2015
No caminho há algo puro esperando
abri meus olhos
para mais uma vez
ver o lampejo de luz num
oceano de escuridão.
a luz turva e distorcida
rasgava-me a visão.
dias anestesiados,
semanas de afazia.
medo da noite,
do próximo passo
sem fome de vida.
desprazer de ver as folhas sendo
levadas pelo vento gelado de outono.
...
a morte havia chegado mais cedo.
não a morte de cessar o pulso,
mas a morte de cessar a vida
da vontade, do querer e do desejo.
faca sem fio. corpo criando peso.
ruínas são belas por si só!
mas seria belo um coração em ruínas?
fluir em sangue negro
incapaz de sentir nada
nem mesmo ódio,
ou o ódio de si mesmo.
ou o ódio de si mesmo.
há algo puro esperando no caminho.
o velho torvelinho se agita
girando no redemoinho de terra.
os olhos embotados ganham cores.
como o céu ganha o arco-íris após a chuva.
mas há algo puro esperando no caminho.
há vida após o dia, há o azul do céu.
ainda canta os pássaros neste ninho
porque a luz brilha ao levantar teu véu.
dizem que para não se sentir sozinho,
às vezes é preciso revirar teu mausoléu
quando abri os olhos
abri também as janelas,
portas, portões e portelas.
não quero esse ar carregado
de pesares passados
não quero bloquear
meu caminho com horas
desperdiçadas de lamúrias
assombrações ou segredos.
quando abri meu sorriso,
abri também o teu sorriso.
abri as mangueiras, o forno e a pia.
abri também as janelas,
portas, portões e portelas.
não quero esse ar carregado
de pesares passados
não quero bloquear
meu caminho com horas
desperdiçadas de lamúrias
assombrações ou segredos.
quando abri meu sorriso,
abri também o teu sorriso.
abri as mangueiras, o forno e a pia.
abri as mãos e abracei meu dia.
abri comportas e também abri fogo.
descansei no teu colo
aninhei-me em ti.
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