terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sobre o Calor

Sem estação


Ah, o calor, o pulso quente
o fluxo ardente, espumado
- O sal da carne libertado.
O coração gebado em chama
elena, faíscas quicam no ar
e não se apagam, não morrem
- esquentam mais e mais até
ascender em fogo brilhante.

De manhã o sol é comportado
lá no mais alto empíreo se faz
a luz que não dói, não fere.
Pela tarde, devasta as ruas e
obriga a todos se esconderem.
Sinto os pulmões queimando,
dos olhos saem arilos e eles
caem no chão evaporando.

Sobrevivem nos jardins áridos
alguns animais e plantas estivais
Não há árvores frondosas: só
galhos secos e contorcidos que
lembram obras esculturais.
Na caatinga há o fogo-natural,
as cascas se incendeiam
e as sementes germinam.

Nas noites de sono incubo
o sonhar é latente, enfelujado
da fumaça negra dos carros.
Da fatigante busca por uma
posição que me traga paz.
Depois de um jornada enerve,
um torvelinho que seja
quente ou seco, já me serve.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um dia ensolarado de primavera.

Na iminência das férias

A luz de Novembro esmaece
numa suave e leve esqualidez,
é possível ver com nitidez
os dias do próximo mês.
Luz que infiltra sob a tez,
luz que machuca sem vez,
luz que alimenta os ipês.

O vento sopra sobre as folhas
da bananeira ensopadas de sereno,
que dançam sem ritmo algum.
Na terra úmida e escura
alguns galhos com frutos
ainda em estado de flor.
De uma cadeira de vime,
comerá uma manga de vez
com sal e sentirá o primor,
o sabor dos meses passados.
Pela fome de estar a ruar e
acordar muito tarde do dia.

As rubincudas amoras do canteiro.
O caldo de cana da antiga estação.
As goiabas vermelhas da vizinha.
As lichias do mercado ceasa.
As uvas Itália do casa da vovó.
As mexericas da feira de sexta.
As laranjas do vendedor ambulante
Os eventuais maracujás com açúcar.

É um regresso pérfido.
Os aromas são acessíveis,
e o calor não encorpa o marasmo.
As manhãs são vazias,
as tardes sonolentas
e as noites chegam rápido.
As horas não preocupam,
porque os dias são opacos.
Dezembro tem um rosto triste
e a primavera chega ao fim.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Soneto

A doce falência (que é envelhecer)


Tenho cortes, cortes que sangram
tenh'alma sofrida por sentir a dor.
Ossos finos frágeis se quebram
ao desbotamento total da cor

Olhos crivados mancham a visão
o sol seca a pele, queima a carne.
Não sinto o pulso do teu coração
Minha presença não faz alarde

O corpo luta, a alma cede com sede
e padece na falência súbita e lenta
da ânsia de tomar mais um fôlego

sem andar catatônico nem trôpego
é triste chegar na casa dos '...enta'?
não no balançar de uma bela rede.

Sobre a Infância

Sonhos que aterrorizam, lugares que não pertenço. No pé da colina a morte. Aviões decolam e cortam o ar. As janelas tremem o mato deita - deitado eu fico.
Depois da turbulência, sempre vem a calmaria. Depois da chuva, sempre vem o arco-íris. Depois da tempestade, sempre vem o sol. Depois das lágrimas, sempre vem a alegria. Depois dos pesadelos, sempre vem o alívio. Depois dos sacrifícios, sempre vem a recompensa. Depois da paixão, sempre vem o amor.

Há uma estrada pro passado que leva às lembranças mais inocentes: A de uma menino, que só queria soltar pipa e andar chutando terra. Que apanhava tamarindos, depois subia no telhado da garagem e acompanhava o vento reger uma sinfonia sobre o pálido trigal. Os olhos ardiam e brilhavam por correr pelo extenso quintal com o bodoque dependurado na cintura, e isso era a maior aventura. O cascalho poroso era munição, as pinhas mais altas eram os melhores alvos. Bolas de gude eram status e o leão, cego de um olho, era meu melhor companheiro.
Minha vó vendia laranjinha e picolé, meu vô cuidava da horta todo dia nas mesmas horas do dia, antes das 6 da manhã, e depois das 6 da tarde, mais o três pés de jabuticaba que tomavam muita água. O sol é o relógio deles, as nuvens e a cor do céu dizem mais que a própria metereologia.
À noite ela tricotava enquanto ele preparava a janta onde iam fatias de queijo, preparado pelo Tio Alfredo, nosso vizinho, por cima do arroz branco. Quando sentia o cheiro ia, logo colher limões para uma gelada limonada.
Não tinha piscina, tinha o córrego das manilhas. Não tinha jogos eletrônicos , tinha uma velha carretinha de madeira e na entrada, perto da porteira de cor branca e descascada do tempo, havia um balanço de cordas amarradas aos galhos do pé de manga.

Não pertenço mais a esse lugar mas é um refúgio e que ainda existe. Porque o passado é um abrigo caloroso e perigoso, onde podemos lá nos deitar às vezes na terra vermelha e quente, e que se levantar sempre será um pesadelo: voltar pra realidade é sufocante.
E quando o aviões decolam, quando as janelas tremem, quando os pesados ônibus fazem a casa inteira estalar; volto nessa estrada, a pé com o bodoque na cintura e o leão caminhando ao meu lado, olhamos dentro da noite, e só ouvimos o estrilado dos grilos e o lusco-fusco dos vaga-lumes.