Frio que recosta na espinha e provoca
o murmurio espontâneo da noite.
Cigarra hipnotizante que conduz a luz do
sono pra longe na noite.
Vento urrante no tijolos rebocados, e você não vem.
No balançar das folhas vejo teu rosto sorrindo
e no deitar do trigal vejo teu corpo se formar sobre o meu.
Lua embaçada que esconde os cabelos dourados
atrás das nuvens brilhando nos pequenos pontos no céu.
Frio que me visita sem permissão, frio que invade o corpo
de um morto e o carrega como folhas numa noite de outono.
Vejo com os olhos embotados a cor do vento
abraçar-me como luz morta sombrear os dentes.
Como a noite traz o dia, eu trago do ar que me mata.
Como o fogo consome o ar, eu trago da luz que me queima.
Queima o trigal numa explosão de gozo.
Alimento do que morre e morro do que me alimento.
Recosto no travesseiro e me abrigo nas cinzas que
sobraram do cadáver como se fossem penas de cisne.
Pois é o que me permito inventar neste cemitério ambulante.
Vivaz sem batimento, cortejo a morte como Cyrano de Bergerac
cortejava às sombras as parisienses nas costas do pulsar real.
A voz emanda pelo urro do vento cortada pelo epitáfio
de concreto fincado na terra podre, é lodo que se forma
nas letras cravadas homenageando em meia duzia de palavras
quem nasceu sem vida e insistiu por uma vida numa vida
que foi lhe dada por engano.
E por engano te sinto, por ilusão te vejo, vida. Vida minha?
Não consigo te alcançar pela transparência borrada
de cores mórbidas. Voe para além da iluminação do sol,
pois aqui só há clarão de lua e insetos noturnos.
É a mão fria que acalenta o calor do espírito,
é a cigarra que canta até a morte chegar,
é a sereia que canta até o corpo se afogar.
é a vida não dada que morre antes do sol raiar.