segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O gosto do fel



"O lugar que partimos é o lugar em que chegamos, filho."

Queria que meu pai, em tom de conclusão, me dissesse esta frase em qualquer momento da vida.
Queria que me pai tivesse me ensinado a fazer a barba, a dirigir, me ensinado como um homem deve tratar uma mulher, como se começa algo bom, como planejar, como lidar com um planejamento que não deu certo. Coisas que farei e direi a um filho meu, ou direi e farei a mim mesmo durante a vida até o fim. Porque, felizmente, não sei o meu destino e, certamente, meu pai também não sabia o dele. Mas de uma coisa, ao menos isso, tenho certeza sobre a vida e entre a vida (bendita graça concedida, multiplicada em células e desintegrada em pó) há um meio tempo que se chama viver, e é bem ali que são compartilhadas experiências, ensinamentos ganhados e repassados com carinho afim de ver o meio tempo não passar em branco como, na maior parte das vezes acontece.

Me arrependo de ter começado a compreender o sentimento, a emoção, a tristeza, a raiva, a alegria, o amor tão tarde e fico menos contente ainda em saber que isso  não foi adquirido com meu antecessor.  E aqui está algo que me enterra em plena vida: me arrependo de algo que nem sequer é culpa minha. Ora! se és filho, és um pote vazio que continuará vazio até os olhos se encherem com aquilo que vês, com aquilo que sentes e se ninguém lhe proporcionar nada disto, nada disto haverá em seu pote e nada disto o serás. O que, em outras palavras, é o mesmo que dizer que consumirás o que a terra lhe oferecer cegamente, pois é do nosso instinto preencher vazio, é do nosso instinto estrelar o céu, tapar buracos, porque ninguém quer que sua vida passe em branco.

Até diria que foi melhor assim: se moldar ao mundo é melhor que ele se moldar a você. Escolher o que vai ao pote é melhor que alguém decidir o que irá colocar algo por você. A sensação de liberdade é sempre maior, os riscos também. Riscos não medidos, atitudes não pensadas. Consequências incabíveis de ser retratadas...Eu não sei o que é melhor, não sei o que é bom. Eu não sei quem sou, afinal. Parece desespero, e é! Desespero causado pela dúvida de pensar que é melhor assim ou estou fantasiando em demasia  destino que me foi imposto?

Escolhas são sempre uma alternativa indubitável de aparecimento. Torná-las algo bom pra você não é uma certeza, mesmo com a convicção de um sábio monge que passou a vida meditando no Tibete, tomá-las é tornar-se parte da coesão de manter o mundo girando, em ciclos intermináveis de sucesso e fracasso. Aprendizado, a base de tudo que somos construídos, é um grande vazio sem essa fé de um deus que rogamos sempre que nos vemos sem chão.

O lugar do começo, o lugar que despus-me de tudo que vivi, o lugar que vou, o lugar que não vi...
O pai que não tive, as palavras que não disse, a mãe que pouco abracei, a mesma mãe que nunca busquei um conselho, a vida que imagino, a vida que vivo, a vida que não quis, as coisas que me são lícitas, os verdes que morreram com toda esperança de dias coloridos, o choro abandonado na infância, a infância abandonada por uma criança, a pipa perdida ao vento...

Mesmo sem entender o que meu pai queria me passar, eu queria ter ouvido de qualquer maneira.

domingo, 11 de novembro de 2012

Ao sabor das lichias


Longe de raiar o dia
fogo aceso que ardia.
Na noite languidez surgia,
luminosa ceiva brotava
e a trança se desfazia.

Em tom pleno acaricia.
O cego escuro gemia.
Dançou a canção rabularia;
colocadas em sussurros
enquanto o corpo frenesia.

No peito coração arritmia,
Suspiro, sufoco...asfixia.
Não acalente a ousadia,
fonte de  febris delírios
construídos em harmonia

Pela manhã luz fria
sereno teu corpo caía.
Envolto lençól pendia
numa  ponta bailava e
teu seio transparecia.

Amarrotada fronha retorcia,
sopro de galhos na ventania.
Ao pé da cama a rouparia.
Chuva & sol, enxurrada
Novembro oferecia de poesia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

É do tempo se estugar



Move tão depressa as asas do beija-flor
que plaina sobre o pedregulho no quintal.
Dias de violentos arrebóis e a ternura da noite
sucumbe sem revelar por de trás das estrelas
o rubor estilhaçado e a melancolia
dada aos que tem sede - sede de amar e
sede do amor. Sede de flor colhida prematura.
Cabe, então, retirar a canga de madeira
e andar sob silenciosas tardes cor jaspe,
reconciliado de cicatrizes deste céu arado.
Cabe, então, visitar a velha amoreira do
canteiro que não precisa mais do toco
de caibro para se erguer sozinha.
Ainda que raro, ver as flores da nogueira
se abrirem após a chuva e após a chuva
ver as poças refletirem o sol
num espelho incandescente.

 Então, em retiro de falsa exaustão,
o recolhimento se faz necessário
em pequenos goles de garapa.
Logo depois, minuir os passos na
calçada que levam até feira
mais próxima às sextas-feiras.
Desatinar-se do que é realmente assaz
e execrar o fim como se o fim fugisse
de fora pra dentro trazendo consternação.
E nesse funil aceca, as nuvens passarão para
o inabalável gorjeio matinal, descerão
diretamente para o oeste da cidade e se
espairecerão num mudo lampejo pardacento.

Tão lento agora é a asa do beija-flor...
que permanece in loco a seguir no
seu ingênuo caminho dos roseirais de verão.
Tão monocarpo sois vós
que seria um  pecado sem redenção
consumir de tão bela hóstia para tornar-se
um eterno escravo a mendigá-la mais uma vez.
Rápido e fugaz, é de encontro ao mar que o rio
se sustenta tão imponente. E é no fundo rio
do teu corpo que vivem os mais belos
e raros peixes  Inalcançáveis para quem anseia
vê-los e visivelmente brilhante para quem olha
no fundo dos teus olhos.