"O lugar que partimos é o lugar em que chegamos, filho."
Queria que meu pai, em tom de conclusão, me dissesse esta frase em qualquer momento da vida.
Queria que me pai tivesse me ensinado a fazer a barba, a dirigir, me ensinado como um homem deve tratar uma mulher, como se começa algo bom, como planejar, como lidar com um planejamento que não deu certo. Coisas que farei e direi a um filho meu, ou direi e farei a mim mesmo durante a vida até o fim. Porque, felizmente, não sei o meu destino e, certamente, meu pai também não sabia o dele. Mas de uma coisa, ao menos isso, tenho certeza sobre a vida e entre a vida (bendita graça concedida, multiplicada em células e desintegrada em pó) há um meio tempo que se chama viver, e é bem ali que são compartilhadas experiências, ensinamentos ganhados e repassados com carinho afim de ver o meio tempo não passar em branco como, na maior parte das vezes acontece.
Me arrependo de ter começado a compreender o sentimento, a emoção, a tristeza, a raiva, a alegria, o amor tão tarde e fico menos contente ainda em saber que isso não foi adquirido com meu antecessor. E aqui está algo que me enterra em plena vida: me arrependo de algo que nem sequer é culpa minha. Ora! se és filho, és um pote vazio que continuará vazio até os olhos se encherem com aquilo que vês, com aquilo que sentes e se ninguém lhe proporcionar nada disto, nada disto haverá em seu pote e nada disto o serás. O que, em outras palavras, é o mesmo que dizer que consumirás o que a terra lhe oferecer cegamente, pois é do nosso instinto preencher vazio, é do nosso instinto estrelar o céu, tapar buracos, porque ninguém quer que sua vida passe em branco.
Até diria que foi melhor assim: se moldar ao mundo é melhor que ele se moldar a você. Escolher o que vai ao pote é melhor que alguém decidir o que irá colocar algo por você. A sensação de liberdade é sempre maior, os riscos também. Riscos não medidos, atitudes não pensadas. Consequências incabíveis de ser retratadas...Eu não sei o que é melhor, não sei o que é bom. Eu não sei quem sou, afinal. Parece desespero, e é! Desespero causado pela dúvida de pensar que é melhor assim ou estou fantasiando em demasia destino que me foi imposto?
Escolhas são sempre uma alternativa indubitável de aparecimento. Torná-las algo bom pra você não é uma certeza, mesmo com a convicção de um sábio monge que passou a vida meditando no Tibete, tomá-las é tornar-se parte da coesão de manter o mundo girando, em ciclos intermináveis de sucesso e fracasso. Aprendizado, a base de tudo que somos construídos, é um grande vazio sem essa fé de um deus que rogamos sempre que nos vemos sem chão.
O lugar do começo, o lugar que despus-me de tudo que vivi, o lugar que vou, o lugar que não vi...
O pai que não tive, as palavras que não disse, a mãe que pouco abracei, a mesma mãe que nunca busquei um conselho, a vida que imagino, a vida que vivo, a vida que não quis, as coisas que me são lícitas, os verdes que morreram com toda esperança de dias coloridos, o choro abandonado na infância, a infância abandonada por uma criança, a pipa perdida ao vento...
Mesmo sem entender o que meu pai queria me passar, eu queria ter ouvido de qualquer maneira.
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