terça-feira, 31 de janeiro de 2012

o calor do final de janeiro.

Dê-me tu inteira,
tua rosa e seios.
O sangue na veia,
ferve em anseios.

No júbilo fogoso,
vi terras úmidas.
Teu corpo glabro
tinha boca túmida.

Dorme em mim,
teu sono minuano,
minh'aura plúmea,
de teu suor emano.

Dê-me tua seiva,
teu calor, teu puir.
De noite eu aquietar,
de manhã eu sumir.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Júlia - Com quem me casei.



Era noite de março e meu avô completava seus 83 anos. Saí um pouco para durante a comemoração, queria ver a rua e também a que altura estava uma árvore que plantara 5 anos mais cedo ali, em frente a casa de meus avós. Caminhei até outro lado da rua e me sentei num banco de parada de ônibus, e ali fiquei assistindo o quão grande aquela árvore estava.

Júlia, a inquilina de meus avós, morava na casa dos fundos junto com outras amigas vindas de outras cidades vizinhas. Nessa noite, em que conheci Júlia, percebi que algo a incomodava, nunca soube exatamente o que era, mas decidi que não queria a ver mais assim, como um dia nublado ameaçando seu futuro, decidi fazê-la saber que o sol brilhava sobre as nuvens cinzas.

Sei que Júlia não se entristece quando o sol some por uns dias. E nem quando a chuva, incessante, a obriga a ficar dentro de casa. E que para ela isso é até necessário nos momentos em que a bússola não sabe mais pra onde apontar. Sei também que Júlia procura em si e nas pessoas algo puro que não pode ser descrito, algo singular - gestos. Gestos únicos que defina cada um. Sei que Júlia decidiu morar nessa cidade para trabalhar  e que também planejava estudar veterinária quando as coisas se ajeitassem. Júlia e eu compartilhamos de um ideal em comum: apesar de escolher determinado curso, levando em conta as circunstâncias, temos uma espécie de sonho que seria o pano de fundo da vida. Ela sempre quis entrar pra força aérea brasileira. Júlia já estudou em colégio de freiras a mando dos pais, mas não quis exercer assim que terminasse, então me disse a lição que levara dali: somente os pais, e mais ninguém, deveriam educar seus filhos. Júlia gosta de ir à feira aos domingo de manhã, escolher verduras frescas e um belo peixe para preparar um bom almoço para suas amigas.

Júlia tem ombros altos e retos (o que já lhe garante uma postura atraente). A pele branca e pálida destaca seus enormes olhos castanhos e tristes. Tem algumas tatuagens que cobre parte do braço até o inicio dos seios. Diz não gostar das orelhas e, por isso, as esconde atrás dos cabelos pretos. Mas o que faz de Júlia, e outras garotas, algo inesquecível aos mares da lembrança, é a franja. Não aquela franja cortada de qualquer jeito mal arrumada, mas aquela que arredonda ainda mais os olhos e o rosto, que é feito meia-lua um pouco acima da sobrancelha. É leitora assídua de Nietzsche e gosta de bandas de rock nacional.
Sei, e guardo comigo, as expressões que fazia enquanto procurava, dentro de si, por respostas às minhas perguntas. E hoje vejo que há razões maiores, maiores que a da própria capacidade humana de sentir que existe algo maior. Pois foi Júlia com quem me vi casado no pensamento.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vento ao Léu II


C
laror que irradia nas
entranhas do crepúsculo
do dia que ainda dorme.
Luz que fere encauma.
Uma névoa fulva flui
com a calma de um
rio de penas mansas.


N as noites de vento
perituro, pequenas
estrelas quentes
flutuam sob o negro.
E piscar pra elas é saber
que algumas ousam
piscar de volta pra nós.


O peso dos olhos abriga
a sombra de um brilho
ao procurar por lugares
altos onde o ar é mais
raro e o silêncio descansa
adormecido em uivos
frios entre as frestas.


O valor de cada manhã
sob o manto diáfano,
meu recomeço, vem em
gotas das chuvas de
Janeiro. E os galhos
arranhando o telhado
anunciam a alvorada.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Fernando Sabino

Quando li seu primeiro livro "No fim tudo dá certo, se não deu é porque não chegou ao fim", a tristeza veio com toda força quando me vi aproximando da contracapa porém, nela havia seus outros títulos, desde então decidi reunir todas suas obras, bem devagar, mais com a intenção de degustar livro por livro do que pelo prazer de vê-los todos juntos.
Fernando Sabino era um bom mineiro de Belo Horizonte, e tinha uma mania que mais tarde se tornou seu estilo literário: estrebuchar os fatos cotidianos ao ponto de não se tornarem repetitivos nem chatos. Pelo contrário: via se graça até em fazer a barba, fumar um cigarro estando gripado, dar entrevistas para adolescentes escolares e até uma época em que chegou a tecnologia e ele teve que migrar de máquina de escrever para o computador. Era um homem incrível que vivia entre a realidade e a fantasia. Suas crônicas serão eternas, e minha visão sobre Minas Gerais permanecerá imortal. A paixão pela bateria do estilo Blues & Jazz, o ódio de ver passarinhos presos em gaiolas me cativaram desde o seu primeiro romance: "O encontro marcado". E entre outras coisas também, como ter tido uma galinha como animal de estimação com o mesmo nome que o seu, por ter sido escoteiro, por ter sido medalhista em natação num clube de sua cidade...Tudo isso fazem dele um pai-herói que não tive.