domingo, 24 de junho de 2012

poema

Lamina que corta sonhos, gasta e cega de tanto culminar estas alucinações de um corpo em repouso, de uma mente inquieta. Nas jazidas do leito, lugar de febrís vozes de outrora e que ainda agouram o raso sono, padece a sóbria visão e perambula pelas paredes os fantasmas que, vez e outra, sussuram no ouvido em tom menor:

Oh! Terra de minhas lágrimas! Por quais ilhas teus pés têm se afundado em areia? 
Oh! Sede de minha boca! Por onde teu vestido se esvoaça ao sabor do vento?
Oh! Calor de meu beijo! Que alegres almas têm sido comtempladas com teu sorriso?

Seque teus cabelos molhados, menina, e se deite ao sol, para que no sono embalssamado perpetues para sempre. E ainda que o sol não brilhe mais no céu de maio nem a lua arda nos corações e banhe os enamorados; as pegadas sempre terão as formas de seus finos pés.
Ao longe, sim ao longe da realidade,  um coração ao léu naufraga e vê teus faróis e os segue pelas águas salgadas durante a noite.
Me escorro por entre teus dentes, porque o riso agora é pó e os pés caminham tortos a viramundo.
Estive por entre dias em que o céu nunca foi tão azul e várias vezes o sol coube nos meus olhos. Andei por ruas desconhecidas, entretanto reconheci o canto dos pássaros e também os ipês amarelados. Passeios a dois sob o pôr do sol, a primeira viagem às águas sulfurosas, a visita ao museu; nunca existiram e ainda assim sucumbem no fundo do mais escuro pensamento.
Sei que é letal procurar por equinócios passados, sei que ainda existe uma nuvem transparente de tudo que carrego aqui, lá. E mesmo assim venho buscar, nos restos dos moídos ossos, atracar me mais uma vez no teu seguro cais.

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