quinta-feira, 19 de abril de 2012

Larga Piave

Na incompleta hora desses dias turvos,
navegaste em gondolas nos rios que são ruas
de almas esquecidas de outros hecatombes.
Sob a luz de maio de outrora, ainda assim
percorria pelas ladeiras ornadas de pureza
por estações e ferrovias abandonadas
adornadas com folhas de plátano.
Debruçaste sobre a janela enfeitada
de lírios colhidos num campo de concentração:
 - O cemitério sem covas!
Tu mantinhas a expressão paralisada e os olhos
bem fechados, atentos à brisa do beijo da manhã,
esperando pelo beijo de bom dia divino,
que também é o beijo de morte
renascendo para morrer nos seios imaculados.
Provaste do pecado do jardim divino, assumiste
a forma humana e sangraste nas terras santas.
Fundira-se com a lama e o suor dos homens,
criaste vergonha do teu próprio corpo e, mesmo
assim andas nua pelos campos a colher rosas
para refrescar novamente tua janela.
Nas tardes de solidão teu desejo lhe fazia companhia,
o desejo de consumo do teu quente gozo.
Empalideceste junto aos pomares no outono,
                                                     [junto às sementes do jorro.
Sempre que chovia nos teus lábios frementes, teus olhos
luteolados corriam em direção a luz das velas
que dançavam ao vento dos suspiros.
É a dama da janela que vem lhe servir
um banquete para vossos olhos. Olhos sôfregos
que apenas existem para observar um sonho despertado.

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