terça-feira, 27 de dezembro de 2011

poema

Na rua amanhecida de chuva
lembrança da noite passada
o calor cravando unhas na pele
e a cor de sua terra molhada
Sombrias gotas de amor
brotam do abismo de amar
um coração em tempestade
é um coração apaixonado
E nas manhãs de solidão
sem sol, gorjeios, nem vida
o cinza é companhia, e todas
as janelas estão fechadas.
O verão é energia bruta
das estações anteriores
saber que ele existe, é
sentir cheiro de bronzeador
É ver céu limpo e estrelado,
é mormaço insípido, é
lembrar de você ao meu lado
É também abrir os olhos, ver
a macieira no topo da
colina, e não ver que depois
da colina há um penhasco.
Uma ladeira de emoções.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Um Carnaval Chuvoso

O chiado no telhado, as gotas que
ficam penduradas no varal, não faz frio
e a umidade fica na pele, nas roupas.

Ela, ainda com sono, me pergunta
sobre as horas e boceja se ajeitando
na cama.
Beijo-lhe a face e sinto o cheiro de seu
perfume misturado ao seu próprio
cheiro, ao nosso cheiro esvaecido.
Não respondo nada pra não perder
o ritmo dos seus batimentos e ouvir
o sangue fervendo sendo empurrado
pelo coração de Fernanda.
Ela alisa os cabelos e abre olhos
que procuram minha expressão
e quando acham, surge um sorriso.

Convido a para tomar um café:
pão na chapa e achocolatado.
Ela se levanta meio corpulenta,
amarra os cabelos, vai até a janela,
observa em silêncio a terra
encharcada, esfrega os olhos
e olha para o céu: não há sol,
só há um céu raso e cinza, onde
uma luz de sombra expiava
e descobria seu sexo castanho.

- Está ficando tarde, ela me diz.
Depois se veste, calça os tênis e
pega seu guarda-chuvas colorido.

Mas a verdade é que nunca é tarde
para um café acompanhado do barulho
da chuva de uma tarde de carnaval
com Fernanda, a naturalista.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Soneto

Para todos 25 de Dezembro

Nas árvores da praça do centro
há luzes sem cor no filamento
Que ascendem a noite de natal
nosso fogo de esperança anual

Uma criança com seu brinquedo
seu sorriso é puro e sem medo
O verão começou três dias antes
de conceber-se estrela cintilante

Sempre chovem gotas tristes
no céu que crepúsculo existe
Que ainda vejo como presente

após vislumbrar o sol ardente
As cores são ciclo vida e morte:
o vento sul soprando pro norte

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Antes de um reencontro


O mundo, um horizonte só
um lugar onde pessoas são
separadas por paredes, muros,
ruas, rios e continentes. Mas que
nenhum encontro é impossível,
e nenhum deslocamento é mortal.

Todos os dias o mesmo pensamento
vem me ver: o de ficar a imaginar
como seria se não tivesse um fim.
E esse reencontro diário com a
hipótese é um encontro mortal.
Porque ele tira a cada expectativa
criada, um pouco da vida, acelerando
o envelhecimento da alma.
É tão triste quanto visitar
o túmulo de um morto, onde cada
lágrima é um pedaço precioso
que se vai, que cai na terra, pois
promove o espancamento
espiritual e corpo e alma ficam
doídos. Um dia assim
cada minuto é contado. Cada
passo ecoa no ar as lembranças
de que um dia o eco não havia, mas
havia sim outros passos junto
aos meus, e o tempo não era
contado porque não queríamos
que ele acabasse e nem passasse.

Mas ele passou. E ele acabou.
Assim como tudo que tem vida
um dia morre, ele também morreu.
Assim como toda chama. Ele se apagou.
Assim como todo começo. Ele terminou.
Assim como todo vento. Ele soprou.
Assim como toda ave. Ele voou.
E pra bem longe, onde só se vê
quando os olhos estão fechados.
Onde os sonhos, o mais doce
sonho é que um dia ele se
realizou. E desse sonho agora
estou acordado.
Os instantes que precedem
algo que muito se quer, são os
mesmo momentos agonizantes
de algo que muito se evita.
E talvez saber que, cedo
ou tarde, isso será consumido,
faz de você um escravo da expectativa.

Hoje não irei visitar nenhum morto.
Hoje irei revirar a terra, que é o
mesmo que procurar, entre todas
as coisas, sofrer. Isso é, acima de tudo
andar pela penumbra e se recusar
a sair dela, mesmo quando
o sol nascer. Isso vai ser o ponto
final, até mesmo porque tudo deveria
começar com um ponto final, afinal
a única certeza que temos é que
tudo chega ao fim.