Chega de poemas. Não quero mais fonemas vazios, cheio de falso lirismo.
Quero tardes de sol e piscinas cristalinas. Quero encostar-me à sombra das árvores, e ver o brilho do sol passear pelas ondas na água.
Chega. Não quero sempre ter que ficar com a parte do amor que dói. Não quero amar - o amor destrói.
O amor sonhado é mais emocionante que o amor vivido. Sim, é. Por que? Porque pode-se enfeitá-lo à seu gosto e, a melhor parte - só acaba quando você disser pra acabar. Pode-se, então, levar tudo dele ou nada dele e mesmo assim, ninguém ficará com um buraco no peito.
Amar é, enfadonhamente, exercer o cuidado com o próximo, senão em demasia para ver a carusma se assentar.
Ao entardecer quero poder admirar as mulheres em silêncio absoluto. Sem que elas saibam, sem que ninguém saiba que o canto de sua boca é diferente de todos que já beijei.
Uma vez, uma garota que trabalhava com a mãe num salão de beleza, me disse que quando eu a olhava, sentia que sua alma estava sendo observada. Logo em seguida me entregou uma pequena carta, se virou e foi embora. Pouco tempo depois, se mudou pra outra cidade. Antes disso, lembro-me de quando meu coração não amava - o mundo era um lugar afável, sem dor; os dias eram divertidos e o sol não me incomodava.
Hoje, prefiro as noites. Hoje, prefiro o céu negro. Hoje, prefiro vagar pela madrugada sem destino. Hoje, prefiro a nudez da lua e prefiro a nudez dos corpos trêmulos que foram se desgastando com essa pedra-pome chamada amor. Prefiro copos cheios. Prefiro lugares cheios de corpos vazios. Pois as almas não acompanham mais seus corpos durante a noite - somos uma alcateia triste a vagar pela floresta em busca de comida, em busca de sangue. Em busca de outro corpo sem alma.
E ato lancinante espreita em toda esquina. E em todo beco úmido está pudor, o atrevimento da escoria rejeitada pelo destino - o ser libertino.
Schopenhauer acreditava que não nascemos nem bons nem maus - O que molda o sujeito são suas vontades e desejos, que surgem ao longo da vida inconscientemente. As dores do mundo são despertadas quando decidimos possuir algo, e ao termos em mãos o objeto de desejo, adquirimos também a dor do mundo.
Não quero o mundo, não quero sua dor. Não quero nada. Porém, desejo possuir tudo.
Ainda em busca de um sentido, não sei se encontrá-lo trará paz a toda essa desolação, a essa fartura de poemas cheios de falso lirismo. Mas até lá, quero estar à beira de piscinas cristalinas, à sombra dos ipês no outono.
Um comentário:
Enquanto a primeira metade da vida é apenas uma infatigável aspiração de felicidade, a segunda metade, pelo contrário, é dominada por um sentimento doloroso de receio, porque se acaba por perceber mais ou menos claramente que toda a felicidade não passa de quimera, que só o sofrimento é real.
SCHOPENHAUER (As Dores Do Mundo)
Eu...
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