segunda-feira, 30 de julho de 2012

Grow up.

       
Outras mansões foram erguidas aos arredores.
A terra continua batida, mas as árvores ganharam altura.
Na antiga garagem ao lado do pé de tamarindo,
não existia aquela mesa de sinuca. A entrada está devastada,
não era possível ver o céu, porém agora é a única visão que se tem.
As poucas flores que haviam lá, estavam morrendo sob o sol.
Crescera mato e grama ao redor da casa que cresci.
Mero descuido do atual proprietário.
O trio de pés de jabuticaba com mais de 30 anos
de cultivo e regadas intensas nos fim de tardes
que meu avô costumava ligar a mangueira
e esquecê-la ali, só pra nos dar enormes frutos na época.
Quem dera se soubessem eles que
umas das poucas coisas que exijo do mundo fosse que aquilo
nunca mudasse. Mas as pessoas mudam e o mundo, de forma
cruel, responde a altura.

O lugar que se descobre o mundo
é também o lugar que se enterra a infância.
Porque a memória é âncora e também é vela.
Fica pra trás todo esse momento que o vento
soprou pra longe, para acordar dias mais tarde
e mais maduro como os morangos de fim maio.
Trago em mim o mundo que criei e que recrio
toda vez que ele para de girar. Não se mata
o passado e também nenhuma flor.
Não se esquece da inocência nem da dor que um dia foi deixar
a terra em que andei descalço para calçar meu sapatos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Julho: tarde, noite e morte

         
       
Nas tardes o véu vermelho
cobre de sangue as ruas
e afogueia o céu azul.
Segue mansidão o mar
de gente olhando pro chão.
Julho se enterra na terra
pisoteada, esmagada, moída,
movida pelo rancor
de desejar mais um dia em teu seio.

                      -

Julho é sopro de sereia
entoando belas canções para
o corpo que se ausenta
e naufraga em água escura.
Julho é mais do mesmo,
é fim adiado da metade
de um começo brando.
É repouso em grama verde,
e no céu a imensidão do mar.

                       -

Lugares que gritam ao longe, mas não os vi.
Não alcançam mais as ondas que
quebravam aos meu pés.
Escuto, de distancia não calculada,
o salgado queimar e me lembro
do gole dos beijos que tomei,
e que agora lamentam
o silêncio de uma longa partida.
Os sorrisos que vi e que agora
tais lábios estão serrados para o amor.
Fogem para o alto notas
de um piano desafinado.
E fogem minhas mãos de
teus cabelos sedosos
tangidos com mortas açucenas.

domingo, 22 de julho de 2012

Julho: manhã

Pois revive o pássaro para cantar o dia que nasce.
Raia o dia e faz-se a luz penetrar na tez,
luz que alimenta jasmins e espalha perfume.
Rutila as brumas matinais,
de cores primárias se pinta o dia
e ruboresce no céu gelado as nuvens
vaporosas de Julho.
É de um brilho intenso que se
faz o frio que arde na dormência cortante do toque.
Dos pelos em riste ao narizes vermelhos.
Dos movimentos lentos à voz trêmula.
Do vento seco ao galho tombado.
O solstício se vinga e não há arrebol
alaranjado no horizonte distante.
Logo o dia vai se pôr novamente
e logo a noite desabotoará o vestido da madrugada.
Para que no fim de julho as parreiras dêem o fruto da geada.
Para que no fim as pessegueiras sejam colhidas com o
orvalho deslizando na casca como lágrima que escorre no rosto.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Para Cecília. Com gosto de hortelã.

Não há dúvida que
meu velho coração mastigado
se ruboriza com facilidade.
Isso porque acredito na
divindade suprema
que roga por algo acima
do que pode ser visto.

-

Claro, teu sorriso é claro,
e tua boca, tão pequena,
esconde um sorriso claro,
tão claro, mas tão claro...
Teu corpo é um relicário.
Teu aroma boticário.
Cecília é jovem e bonita.
Ombros largos e agressivos.
Não vejo o pousar em Cecília,
nem mesmo nas suas mãos,
do tamanho de amarílis,
que desprezam a gravidade
de exercer sua atividade.
Ao seu redor tudo se assenta.
Mesmo assim, há realento
em cada piscar de olhos.
Há dinâmica em cada uma
das pintinhas de seu rosto.
Isso porque os morenos
olhos de Cecília, são balões
de ar quente que flutuam
no céu de São João:
Leve teus miúdos e arredondados
olhos pra perto do sol,
onde brilham equitativo.
Feche teus olhos a noite
e veja que as estrelas que brilham
é por causa de ti, Cecília.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

julho

   
   
Ainda paira na soleira a brisa de maio,
alçam voo no norte as andorinhas em bando,
ainda na evanescência do orvalho vespertino
algum sono se desprende do chão de volta ao corpo
e tudo se parece com as folhas de outono.
Ainda flutua o sereno da madrugada, e endurece
a lágrima da vela tarrada.

A noite dormia enquanto o silêncio
se enchia de fúnebres instantes,
e as cortinas se inchavam e murchavam,
                                                 [como dois pulmões.
Os móveis de madeira estalavam seco
o retorcer da expansão material
e o soprar do vento uivava desarmonicamente
entre os pinheiros balançantes.
Sei que na manhã seguinte se desabrocharão
as margaridas. E nos olhos que as olham,
a ardentia se revelará num lampejo a adejar
em tais miúdos olhos embotados.

Ainda que deixe de respirar a brisa retumbando
e vibrando neste sangue.
Ainda que degele o amor tomado pela
distância e suas gotas almejem matar
a sede do pecado, o coração
desamável fechado em rocha fria,
erguerá os olhos pra cada sol que nascer.