terça-feira, 9 de outubro de 2012

poema (para Wallace Stevens)


Um coração de paredes inerves e glabras,
para a luz penetrar e com afinco não sofrer o albedo,
e que homem purgaria descascar seu próprio peito
e entregar-se em vivalma para corpos desalmados?
A tarde continua a debruçar no desgosto
vazio incompleto da sensação de nada cumprido.
Por que, então, o oco se completa quando é agosto,
de rosas cheirosas, de dias claros e céu colorido?

Voo em silêncio até o rosto laureado que alcancei,
deixei ir, e não vi mais entre as ventarias brumadas.
O amor, emagrecido, rubígine e em bronze pó se torna.
Porque até a flor mais bela morre um dia e até o dia
mais colorido de agosto se acinzenta. E se esgota
os corpos após o amor. E se recolhe para despetalar,
no frio de inverno, a rosa que foi dada com frescor.

Um coração que foi colocado num corpo errado,
uma palavra proferida na hora certa, uma alma
suja em lama que conflita com espírito imaculado.
Meu peito é gaiola de borboletas que não
voam ao ver a luz do dia. Não reagem em
qualquer miséria no som do vento, no som de umas
poucas folhas provocadas por elas mesmas.

As horas são retalhos e em grandes pedaços são
os dias. Manta costurada por gestos e expressões,
E mulheres rendam e bordam para ornar o sepulcro
de um jazido escuro. E finda com espada brilhante
cravada na terra sobre sete palmos do coração,
alma e espírito libertos da gaiola.

Um comentário:

guilherme e. meyer disse...

muito massa esse poema, so para variar (ironia) hehe, abraço!