terça-feira, 27 de dezembro de 2011

poema

Na rua amanhecida de chuva
lembrança da noite passada
o calor cravando unhas na pele
e a cor de sua terra molhada
Sombrias gotas de amor
brotam do abismo de amar
um coração em tempestade
é um coração apaixonado
E nas manhãs de solidão
sem sol, gorjeios, nem vida
o cinza é companhia, e todas
as janelas estão fechadas.
O verão é energia bruta
das estações anteriores
saber que ele existe, é
sentir cheiro de bronzeador
É ver céu limpo e estrelado,
é mormaço insípido, é
lembrar de você ao meu lado
É também abrir os olhos, ver
a macieira no topo da
colina, e não ver que depois
da colina há um penhasco.
Uma ladeira de emoções.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Um Carnaval Chuvoso

O chiado no telhado, as gotas que
ficam penduradas no varal, não faz frio
e a umidade fica na pele, nas roupas.

Ela, ainda com sono, me pergunta
sobre as horas e boceja se ajeitando
na cama.
Beijo-lhe a face e sinto o cheiro de seu
perfume misturado ao seu próprio
cheiro, ao nosso cheiro esvaecido.
Não respondo nada pra não perder
o ritmo dos seus batimentos e ouvir
o sangue fervendo sendo empurrado
pelo coração de Fernanda.
Ela alisa os cabelos e abre olhos
que procuram minha expressão
e quando acham, surge um sorriso.

Convido a para tomar um café:
pão na chapa e achocolatado.
Ela se levanta meio corpulenta,
amarra os cabelos, vai até a janela,
observa em silêncio a terra
encharcada, esfrega os olhos
e olha para o céu: não há sol,
só há um céu raso e cinza, onde
uma luz de sombra expiava
e descobria seu sexo castanho.

- Está ficando tarde, ela me diz.
Depois se veste, calça os tênis e
pega seu guarda-chuvas colorido.

Mas a verdade é que nunca é tarde
para um café acompanhado do barulho
da chuva de uma tarde de carnaval
com Fernanda, a naturalista.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Soneto

Para todos 25 de Dezembro

Nas árvores da praça do centro
há luzes sem cor no filamento
Que ascendem a noite de natal
nosso fogo de esperança anual

Uma criança com seu brinquedo
seu sorriso é puro e sem medo
O verão começou três dias antes
de conceber-se estrela cintilante

Sempre chovem gotas tristes
no céu que crepúsculo existe
Que ainda vejo como presente

após vislumbrar o sol ardente
As cores são ciclo vida e morte:
o vento sul soprando pro norte

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Antes de um reencontro


O mundo, um horizonte só
um lugar onde pessoas são
separadas por paredes, muros,
ruas, rios e continentes. Mas que
nenhum encontro é impossível,
e nenhum deslocamento é mortal.

Todos os dias o mesmo pensamento
vem me ver: o de ficar a imaginar
como seria se não tivesse um fim.
E esse reencontro diário com a
hipótese é um encontro mortal.
Porque ele tira a cada expectativa
criada, um pouco da vida, acelerando
o envelhecimento da alma.
É tão triste quanto visitar
o túmulo de um morto, onde cada
lágrima é um pedaço precioso
que se vai, que cai na terra, pois
promove o espancamento
espiritual e corpo e alma ficam
doídos. Um dia assim
cada minuto é contado. Cada
passo ecoa no ar as lembranças
de que um dia o eco não havia, mas
havia sim outros passos junto
aos meus, e o tempo não era
contado porque não queríamos
que ele acabasse e nem passasse.

Mas ele passou. E ele acabou.
Assim como tudo que tem vida
um dia morre, ele também morreu.
Assim como toda chama. Ele se apagou.
Assim como todo começo. Ele terminou.
Assim como todo vento. Ele soprou.
Assim como toda ave. Ele voou.
E pra bem longe, onde só se vê
quando os olhos estão fechados.
Onde os sonhos, o mais doce
sonho é que um dia ele se
realizou. E desse sonho agora
estou acordado.
Os instantes que precedem
algo que muito se quer, são os
mesmo momentos agonizantes
de algo que muito se evita.
E talvez saber que, cedo
ou tarde, isso será consumido,
faz de você um escravo da expectativa.

Hoje não irei visitar nenhum morto.
Hoje irei revirar a terra, que é o
mesmo que procurar, entre todas
as coisas, sofrer. Isso é, acima de tudo
andar pela penumbra e se recusar
a sair dela, mesmo quando
o sol nascer. Isso vai ser o ponto
final, até mesmo porque tudo deveria
começar com um ponto final, afinal
a única certeza que temos é que
tudo chega ao fim.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sobre o Calor

Sem estação


Ah, o calor, o pulso quente
o fluxo ardente, espumado
- O sal da carne libertado.
O coração gebado em chama
elena, faíscas quicam no ar
e não se apagam, não morrem
- esquentam mais e mais até
ascender em fogo brilhante.

De manhã o sol é comportado
lá no mais alto empíreo se faz
a luz que não dói, não fere.
Pela tarde, devasta as ruas e
obriga a todos se esconderem.
Sinto os pulmões queimando,
dos olhos saem arilos e eles
caem no chão evaporando.

Sobrevivem nos jardins áridos
alguns animais e plantas estivais
Não há árvores frondosas: só
galhos secos e contorcidos que
lembram obras esculturais.
Na caatinga há o fogo-natural,
as cascas se incendeiam
e as sementes germinam.

Nas noites de sono incubo
o sonhar é latente, enfelujado
da fumaça negra dos carros.
Da fatigante busca por uma
posição que me traga paz.
Depois de um jornada enerve,
um torvelinho que seja
quente ou seco, já me serve.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Um dia ensolarado de primavera.

Na iminência das férias

A luz de Novembro esmaece
numa suave e leve esqualidez,
é possível ver com nitidez
os dias do próximo mês.
Luz que infiltra sob a tez,
luz que machuca sem vez,
luz que alimenta os ipês.

O vento sopra sobre as folhas
da bananeira ensopadas de sereno,
que dançam sem ritmo algum.
Na terra úmida e escura
alguns galhos com frutos
ainda em estado de flor.
De uma cadeira de vime,
comerá uma manga de vez
com sal e sentirá o primor,
o sabor dos meses passados.
Pela fome de estar a ruar e
acordar muito tarde do dia.

As rubincudas amoras do canteiro.
O caldo de cana da antiga estação.
As goiabas vermelhas da vizinha.
As lichias do mercado ceasa.
As uvas Itália do casa da vovó.
As mexericas da feira de sexta.
As laranjas do vendedor ambulante
Os eventuais maracujás com açúcar.

É um regresso pérfido.
Os aromas são acessíveis,
e o calor não encorpa o marasmo.
As manhãs são vazias,
as tardes sonolentas
e as noites chegam rápido.
As horas não preocupam,
porque os dias são opacos.
Dezembro tem um rosto triste
e a primavera chega ao fim.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Soneto

A doce falência (que é envelhecer)


Tenho cortes, cortes que sangram
tenh'alma sofrida por sentir a dor.
Ossos finos frágeis se quebram
ao desbotamento total da cor

Olhos crivados mancham a visão
o sol seca a pele, queima a carne.
Não sinto o pulso do teu coração
Minha presença não faz alarde

O corpo luta, a alma cede com sede
e padece na falência súbita e lenta
da ânsia de tomar mais um fôlego

sem andar catatônico nem trôpego
é triste chegar na casa dos '...enta'?
não no balançar de uma bela rede.

Sobre a Infância

Sonhos que aterrorizam, lugares que não pertenço. No pé da colina a morte. Aviões decolam e cortam o ar. As janelas tremem o mato deita - deitado eu fico.
Depois da turbulência, sempre vem a calmaria. Depois da chuva, sempre vem o arco-íris. Depois da tempestade, sempre vem o sol. Depois das lágrimas, sempre vem a alegria. Depois dos pesadelos, sempre vem o alívio. Depois dos sacrifícios, sempre vem a recompensa. Depois da paixão, sempre vem o amor.

Há uma estrada pro passado que leva às lembranças mais inocentes: A de uma menino, que só queria soltar pipa e andar chutando terra. Que apanhava tamarindos, depois subia no telhado da garagem e acompanhava o vento reger uma sinfonia sobre o pálido trigal. Os olhos ardiam e brilhavam por correr pelo extenso quintal com o bodoque dependurado na cintura, e isso era a maior aventura. O cascalho poroso era munição, as pinhas mais altas eram os melhores alvos. Bolas de gude eram status e o leão, cego de um olho, era meu melhor companheiro.
Minha vó vendia laranjinha e picolé, meu vô cuidava da horta todo dia nas mesmas horas do dia, antes das 6 da manhã, e depois das 6 da tarde, mais o três pés de jabuticaba que tomavam muita água. O sol é o relógio deles, as nuvens e a cor do céu dizem mais que a própria metereologia.
À noite ela tricotava enquanto ele preparava a janta onde iam fatias de queijo, preparado pelo Tio Alfredo, nosso vizinho, por cima do arroz branco. Quando sentia o cheiro ia, logo colher limões para uma gelada limonada.
Não tinha piscina, tinha o córrego das manilhas. Não tinha jogos eletrônicos , tinha uma velha carretinha de madeira e na entrada, perto da porteira de cor branca e descascada do tempo, havia um balanço de cordas amarradas aos galhos do pé de manga.

Não pertenço mais a esse lugar mas é um refúgio e que ainda existe. Porque o passado é um abrigo caloroso e perigoso, onde podemos lá nos deitar às vezes na terra vermelha e quente, e que se levantar sempre será um pesadelo: voltar pra realidade é sufocante.
E quando o aviões decolam, quando as janelas tremem, quando os pesados ônibus fazem a casa inteira estalar; volto nessa estrada, a pé com o bodoque na cintura e o leão caminhando ao meu lado, olhamos dentro da noite, e só ouvimos o estrilado dos grilos e o lusco-fusco dos vaga-lumes.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O dia em que ouvi o nome dela

Era uma noite sem estrelas,
não era noite de sábado,
tudo estava ali, tudo era calmo.
As ruas eram geladas e vazias,
os letreiros desligados,
os semáforos em alerta,
os telhados pardos sob a luz fria,
o vento estava estático
e o silêncio dominava, outra vez.

Num interior de pouca luz,
e algumas mesas de madeira,
com paredes pretas e rabiscadas
e outros letreiros acesos,
havia essa garota.

Ainda reconstruo os detalhes
que levaram certo tempo
para serem criados, e que ficaram
como cicatriz na lembrança:
a maquiagem desenhada,
cabelos compridos e lisos.
O batom vermelho morango
na boca de sorriso largo e mortal.
A sombra dos olhos realçavam
um olhar que trazia sensações e
que faziam pouco até de mim.
Eram olhos que se enchiam de vida
e recriava a vida em cada gargalhada
que agitava o cabelo como ondas no mar.
O sol brilhava atrás de seu rosto,
e iluminava todo lugar, e as paredes
não eram mais escuras.

Não sei se vou rever Vêronica,
mas sei que o aroma das flores
sempre volta após o inverno.

domingo, 23 de outubro de 2011

Outubro

No Outubro que se vai, seus ventos gelados chegaram aqui atrasados porém, não tardaram em trazer a primavera como sempre se via. Na grama verde-bandeira de folhas com pelos brancos , os insetos que vaguearam durante toda a noite, jazem na terra úmida. Nas vorazes manhãs nubladas, os poucos raios de sol são mais nítidos, mais quentes, mais ávidos e esperam ansiosos para evaporar o orvalho que enfeita o túmulo desses pobres bichos. Nos rostos, o rubor é quase natural e se destaca fácil quando apontam para o céu de nuvens carregadas fazendo o olhar se perder e imaginar: em que ponto nesse frio azul é possível sentir passar a calmaria de uma brisa bem aqui, na terra?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

trecho

Sobre sair e se divertir

No centro da cidade, onde qualquer cidade não dorme durante a noite, nas noites de sábado, toda a agressividade humana se concentra em um propósito comungado pela maioria das almas que preenchem o sereno da madrugada de domingo. Veias quentes, mentes turbulentas cheias de problemas colecionados durante semana inteira. Onde tudo se afunila rumo a um único objetivo: esquecê-los por um momento, por uma noite e talvez, por alguém.
Ver as ruas úmidas e algumas casas com a luz apagada faz ascender a febre de andar e descobrir quem criou aquele ambiente tão instigador. Por andar a procurar um sentido pra estar onde se está e cometer pesares sobre a carne que se agita com o passar das nuvens sob a lua no céu de noites que só quem saiu e olhou pra imensidão do céu negro, descobriu o quão a vida pode ser agradável aos olhos de quem sabe enxergá-la.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sobre amar

Não pertenço às coisas que me convém
Estar em um lugar, é estar tudo bem
Amar uma mulher é algo além
do que os próprios sentidos veem.

Não quero amor que arda, que machuque,
quero flores perfumadas que sequem
Que deram sua vida por um deslumbre
Aos olhos que viram as mais belas

Qual manha não acorde cristalina
depois de ouvir um bom dia
e um sorriso vindos de sua boca?

Entre tudo que há de belo - você
No céu negro uma estrela - você
Nos olhos tristes, no pensamento,
onde piso, onde me deito - você.

domingo, 25 de setembro de 2011

A moça

À moça da casa de ervas.

A moça de aura radiante
que carrega em seu rosto
aquele momento após
uma boa gargalhada.
De olhos castanhos, grandes
e redondos. De nariz fino
e proporcional ao rosto
delicado de traços suaves
porém fortes, coberto com
uma pele rosa e macia.
Desenhando as maçãs do rosto
com um risco quase invisível de blush.
que tem os cabelos negros,
como a asa de um corvo,
suavemente amarrados
pouco acima da nuca
exibindo o começo das costas
pequenas que o vento define
quando sopra a roupa fina
contra as curvas de seu simétrico corpo.

Que está sempre bem vestida
que usa calça jeans reta
até o scarpin vermelho escarlate
que está sempre conversando
com uma amiga sentadas
numa bancada. Mas que eu
não sei quem é ou como é.
Pois quando passo
meus olhos só procuram
a moça da casa de ervas.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O dia em que tudo acabou

nas noites de céu sem estrelas
nos suspiros que dei na janela
na mesa de jantar dois pratos,
um pra mim e o outro dela.

teus casacos, teus sapatos
no cabide teus vestidos,
onde era nosso abrigo
o sol já não entra mais

no quintal as folhas secam
não se regra mais o amor
é tudo cinza gélido e oco
como uma floresta queimada

e ainda pensas que é pouco
no jardim a grama morre
no roseiral só há espinhos
pois as pétalas caíram

onde o vento carregou
pra bem longe as cores
nas manhas de domingo
os bem-te-vis em silêncio

e os cães não latem mais
só há neblina lá no porto
sem navios no meu cais

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Somente no Mar II

quisera o vento soprar
carregado de sal do mar
nos cabelos que permeia
pés afundados na areia
sentada numa cadeira
de vime eu te vi, ali com
chapéu, óculos e tanga
cheirando a bronzeador
tomando suco de manga
vez e outra a maré
vinha tocar te os pés
mas sumia que areia
se esvaía como magia
e úmida assim se ia
apagando todos rastros
de mil passos até você
quisera eu te alcançar
sem morrer na praia
quisera eu lançar te
brisa pra que ela volte
com teu cheiro pra mim
quisera eu, você beber
de mim, e navegar assim
no sangue em suas veias
quisera eu não ser só
e todos meus mistérios
no fundo guardados
meu escuro, meu silêncio
são a ti reservados
mas aqui fico lançando
ondas, braçadas em vão
na expectativa de ver
profundo mergulho seu
na imensidão deste mar.

...e que continua a me inspirar.

domingo, 28 de agosto de 2011

Somente no Mar

Pelos caminhos andei
maré do imenso navegar
que e quantas palpitações
me dei ao te olhar.
Ali, de frente sua imagem
calma e serena me laçava
a atenção, sem tua intenção
e a luz de mercúrio recriou
em ti um efeito de sépia
tornando imortal visão.
Olhos, nariz e boca
harmonicamente criados
como a nona de Beethoven
e por Michelangelo pintados.
Não há espelho que possa
tanta beleza suportar
ela só será compreendida
quando refletida no mar.

Um vestido florido
uma pele cor creme
um cabelo reluzente

Um coração ferido
uma mão que treme
uma alma contente.


Visto em vós por todos
faz te um ser que faz brotar
a dúvida se é verdade
que anjos podem
por aqui andar.

poema dedicado à Daniele

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Porque hoje é segunda (e feriado)

hoje é segunda
dia de recomeçar
uma vida moribunda
a se evaporar

hoje é segunda,
velhos hábitos
uma vida se afunda:
tenho que caminhar

hoje é segunda
nada me comove
o tédio se promove
mas hei de findar;

porque hoje é segunda
o ciclo se reinicia
do sangue se cria
a vontade de amar

amor que perdura,
ao passar da semana
me deito na cama
e só quero sonhar.

domingo, 7 de agosto de 2011

Agosto e meu almoço.

A luz do meio dia, violentamente  invade a pele
cinza e porosa. Os olhos são obrigados a se
fecharem imediatamente e logo vão se abrindo
aos poucos. Num processo automatizado de
adaptação à nova intensidade da luz ambiente.

Caminho na calçada contra o vento de Agosto.
Um vento atordoado que carrega poeira e
outros detritos daqui pra lá, numa tentativa de
anunciar a todos sua chegada. Por dentro sinto
reação semelhante mas essa é a fome tentando
me avisar que ela também chegou.

Escolho um canto para me sentar.
Desses que escolhemos estrategicamente
para não ser notados nem percebidos aos
olhos alheios de quem procura fielmente
a surpresa de encontrar algum conhecido
ocasionalmente tentando se esconder dele.

A rotina é algo que vai se tornando embassado
ao longo do tempo. É nessa opacidade de vivê-la
que faço o meu pedido sem se quer abrir a boca
e excluir itens indesejáveis do cardápio que variam
desordenadamente durante a semana.

Quando sou servido, me lembro o quão miserável
pode ser a alimentação de quem não sabe cozinhar:
cai perante mim uma gordurosa comida feito às
pressas. Salada destemperada que não encorpa
o sabor do tempero senão no ato do preparo.
Calado me sento. Calado me levanto.

De volta à Av. Floriano Peixoto, avenida essa
que me recepciona com uma navalhada de vento
gelado que corta meu rosto. Espero minha vez
para por os pés na calçada e tomar meu lugar
em meio a multidão atordoada e que
também voa daqui pra lá como o vento.

Por cima dos automóveis estacionados
é possível ver o reflexo do sol numa imagem
incandescente. Chama acesa que aquece o ar
de tudo que compõe essa pálida avenida
como panfleteiros, cães a vagar, gente sofrida
gente sonhadora e gente que observa tudo.

De todas as horas do dia, a hora do almoço
é a que me sinto em plena liberdade
para então poder dividir o dia entre a vida
e compromissos. Um momento do qual eu possa
chamar de livre. E que é precisamente
cronometrado em duas horas de ar puro.

Duas horas de ar puro. Duas horas de vida.
e nada mais.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O passado dói

se já não quero mais
a brisa passa ao meu lado
se já não quero mais
volto ao meu passado

passado que me causa angústia
do momento que me senti perdido
procuro ser nada do que fui antes
nada do que eu antes queria

do instante faço o momento
do momento faço o sentimento
e não me acho mais perdido

a brisa vem e me diz:
- essa é a mesma sensação,
a pálida sensação de ter partido

terça-feira, 19 de julho de 2011

Monólogas Rimas

a paz natural de um ser
vem da elegia de viver
dos abismos, do poder
do andar, do sentir e do ver

é necessário crer
em algo pra se ter
que possa tocar ao ler
e aos olhos encher

e tudo nisso a alma dissolver
um novo sentimento erguer
e um novo ser renascer

porque a paz de um ser
nasce daquilo que faz tecer
um infindável manto de prazer

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A esperança de amar (outra vez)

Em tempo, ao olhar pro tempo
não é mais possível escandir
não é mais palpável sentir.
Se solidificou, como a lava
quente encontrando o mar.
Por mais que se deseje de novo,
deste momento pra trás
nada existe, é tudo desvalia.

É algo voraz, feroz e clavo.
E vai deixando seus galimos
Tornando impossível mentir
a esqualidez de ser e estar.
As copas que desfolharam
formaram uma serrapilheira,
um mausoléu de folhas secas.

Cuja função foi enterrar o que
morria e que estava de pé.
E que servirá de sumo para
um novo plantio, uma nova safra.
Novas estações virão e, quem sabe,
em meio a tantas pedras,
um novo amor florescerá.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Soneto Inértico

há um silêncio carregado de verdades
no âmago das minha convicções
dentre todas as realidades
me inclino a que tive dois corações

maldita gravidade que me puxa
pra dentro de mim em qualquer canto
numa sala escura e murcha
não se ouve nada além de pranto

eis que isolado me encontro
e escrevo pra não ficar
mas que [des]companhia agradável!

mensurável até certo ponto
pois quando chego ao fim
só me resta um coração a bailar

quinta-feira, 30 de junho de 2011

poema

I
que se faça fogo, afeto
oh! cúpula curtida do sol
com gramíneas e acácias
ornadas com idocrásios
eleva te, lamúria dos dias
que ao paladar nos vem
o doce de mostajo com
uma pitada de desdém

II
à raiva te dou a ligura
e uma flor de sândalo
dê me efúgio de cintura
sem euforia nem escândalo
sereno orvalhado relento
pois meu peito se abre
a jorrar amor infrene
de ouro e prata nobre

III
a dor dorme, eu sei
no pé do jamboeiro
na casca da mexerica
a alegria está acordada
eu sei, e nunca dorme
não no meu margaridal
não há raízes do mal
e sim pétalas pruinosas

IV
voe daqui pra onde há
um cristalino itororó
que sol cintila sem dor
lá sinal de tempo é
lodo de pedra, e só
e que o vento me leve
mas bem de leve
nas folhas que caem só

sábado, 25 de junho de 2011

Praça Tubal Vilela

na rua esmagada de pedestres e pneus
esconde nas entranhas da cidade
uma história invisível à humanidade
mas não escondida ao olhos meus

chão quente que já foi terra no passado
pessoas atormendas com prazos a cumprir
a essência se evapora desse ser calado
contabilizo mais uma alma a se esvair

mais a frente vejo na praça uma fonte
jorrando água, exibindo formas
sem se preocupar com quem olha

no canteiro uma árvore se desfolha
em baixo dela muitos seguem normas
na esquina, me perco no horizonte.

terça-feira, 14 de junho de 2011

poema

peço-te para que deites junto a mim
mesmo que eu adormeça sem te ver
pois tenho certeza que vou sonhar
com teus braços envolto aos meus
com teus cabelos sendo levados
pelo vento que almeja te alcançar
e sentir o doce toque da tua boca,

e repousar sobre tua pele
quente, macia e cheirosa e ter
tua presença serena que me faz
sonhar acordado, que me faz
trocar os passos do coração que
bate no ritmo de tua respiração
à meia luz da lua desnuda no céu
quero estar fora de mim,

e que tudo continue assim: tenro
sem as manchas da saudade
sem maldade nem pecado
com a plena certeza de te ter
bem aqui ao meu lado.

sábado, 11 de junho de 2011

Bocage (aos meus olhos)

Por esta solidão, que não consente
Nem do sol, nem da lua a claridade,
Ralado o peito pela saudade
Dou mil gemidos a Mariana ausente:

De seus crimes a mancha inda recente
Lava Amor, e triunfa da verdade;
A beleza, apesar da falsidade,
Me ocupa o coração, me ocupa a mente:

Lembram-me aqueles olhos tentadores,
Aquelas mãos, aquele riso, aquela
Boca suave, que respira amores...

Ah! Trazei-me, ilusões, a ingrata, a bela!
Pintai-me vós, oh sonhos, entre as flores
Suspirando outra vez nos braços dela!

sábado, 28 de maio de 2011

soneto de fidelidade (breve nota)

sempre carregava comigo um livro de bolso que ganhei de aniversário com frases e pensamentos de diversos escritores que, particularmente, eu considerava um mini-menu-de-citações-de-escritores. houve um dia em que, voltando pra casa, esqueci o tal livro no serviço mas logo passei na sebo mais próxima e adquiri, por influência do mini-menu-de-citações-de-escritores, em promoção, um exemplar de 'o melhor de vinicius de moraes' . era uma tarde quente e sol perdia força no oeste. me sentei na parada de ônibus, observando um ipê magro e sem graça e suas pétalas murchas e sem vida jogadas no chão que formavam um tapete rosa em baixo dos meus sapatos. resolvi fazer um escopo da minha recente compra e foi quando segurei o pequeno livro com o polegar e deslizei o dedão nas páginas amareladas do tempo e aleatoriamente me saltou aos olhos o imortal 'soneto de fidelidade', que não constava, entre outras escritas de vinicius de moraes, no livro de bolso. mas confesso que me transportei para um lugar sem carros, sem buzinas, sem pessoas - só uma brisa levemente rasteira que tentava, inutilmente, fazer com que o tapete rosa flutuasse. e foram quatorze linhas lidas: quatorze linhas que o tempo não conseguiu me acompanhar, e a morte não conseguiu me enxergar, e eu era o único ser do mundo, e eu era o único ser de um mundo criado ali naqueles momentos feitos pelos dois quartetos e dois tercetos que vinicius escrevera em outubro 1939. após a leitura, tudo me pareceu mais vivo, a vida já não tinha o peso que costuma ter ao se levantar da cama. e assim guardei essa emoção com uma pergunta respondida: então é pra isso que serve um soneto(?).

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ela

ela estava triste
ela fingiu estar feliz
ela sabe forjar a tristeza
ela só não vive por um triz

como toda mulher
ela me toma as palavras
sem nem mesmo se quer
por ela serem pronunciadas

mas como alguém é capaz de tal coisa
se nesse mundo viver é quase sofrer
até mesmo sem querer

o conflito interno é inevitável
evito ser evitado por aquelas
que me fazem sentir vivo e amado.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Vento ao Léu

soneto

Canto, humilde canto, não esse canto
que canta, que a alma se perde.
Que doce és quando cerce
um verde-musgo manto.

Voz de veludo, por si não fala:
flutua a ecoar no vento ao léu.
- Onde estará minha bela,
que senão no meu céu?

Águas do céu atingem me a face.
O vento gela a gota sobre a pele.
O olimpo grita com trovoadas.

Nuvens cinzas carregadas.
A clara alma não se fere,
e a escura vida não padece.

sábado, 9 de abril de 2011

Composição Antiga

De quando uma vez que quis ter uma banda.

Rotina
Levantar e se lembrar:
A hora da minha obrigação chegou,
mais um dia de luta a começar
O sol do novo dia raiou.

Ignore o sofrimento que é,
pois é pra isso que se vive.
Meu ideal me manterá de pé,
minha fé me manterá livre.

Dê seu sangue por sua bandeira.
Para os burgueses não é difícil,
com muito dinheiro, sem olheira.
Cumpra sem medo seu ofício.

Tente entender, não tente resistir
Tente apreciar tudo que conseguir
Agora veja que isso foi sempre assim.

Escrita em: 16/04/2007,
no estúdio "Instrumental'.

sábado, 26 de março de 2011

Um conto sobre um beijo

À Erica Vaneza


Ao tempo que passa
à memória que fica.
E tudo se evapora - pessoa,
para que outra tome
a forma e preencha o vazio
antes dominado pelo escuro
da maior noite de viver só.
Ao calor da tarde, o andar, o suor,
o sorrir e o estar ali.

Pude te ver me olhando - ternura
com os olhos tão verdes quanto as luzes
de um semáforo aberto.
No ar, eu podia sentir teu aroma
tão profundo que tempos
depois, quando respirei fundo,
mas bem fundo, ainda conseguia
senti-lo a vagar no ar.
Como se o próprio ar tivesse
tomado para si a sua fragrância.
Ao fechar os olhos,
cheios de saudade, te sinto
de volta aos meus
braços. Sinto de volta
os fios do teus cabelos
deslizando novamente entre
meus dedos segurando tuas
costas com a delicadeza
de quem segura um violino.

Os segundos que passam,
um momento que não morre
como se tirássemos uma fatia
do tempo e guardasse para sempre.
E que nela havia um pedido
de beijo, um pedido feito
com as feições de quem
deseja sobreviver por algo
tão vital quanto a água é
para as plantas. As plantas
que ornaram a tarde naquele dia
cheio de alegria e vida e cores
verdes, olhos verdes, plantas verdes.

Tudo cabe num beijo.
E é nesse momento que sentimos
as notas de um violino bater
violentamente aos ouvidos
que logo encontram a alma
e o coração. E é neste momento
que alma e coração parecem
vibrar e tocar uma melodia só.

terça-feira, 8 de março de 2011

trecho

ACORDAR

Quero tomar um pouco da
verdade e poder enxergar
o invisível aos olhos sóbrios.
Tirar, com as próprias mãos,
esses pensamentos abstratos
que me confundem toda manhã.
E poder moldá-los de forma
agradável ao olhos, de modo
a ter de verdade uma forma
que faça sentido e que me
faça rir despretensiosamente.