O mundo, um horizonte só
um lugar onde pessoas são
separadas por paredes, muros,
ruas, rios e continentes. Mas que
nenhum encontro é impossível,
e nenhum deslocamento é mortal.
Todos os dias o mesmo pensamento
vem me ver: o de ficar a imaginar
como seria se não tivesse um fim.
E esse reencontro diário com a
hipótese é um encontro mortal.
Porque ele tira a cada expectativa
criada, um pouco da vida, acelerando
o envelhecimento da alma.
É tão triste quanto visitar
o túmulo de um morto, onde cada
lágrima é um pedaço precioso
que se vai, que cai na terra, pois
promove o espancamento
espiritual e corpo e alma ficam
doídos. Um dia assim
cada minuto é contado. Cada
passo ecoa no ar as lembranças
de que um dia o eco não havia, mas
havia sim outros passos junto
aos meus, e o tempo não era
contado porque não queríamos
que ele acabasse e nem passasse.
Mas ele passou. E ele acabou.
Assim como tudo que tem vida
um dia morre, ele também morreu.
Assim como toda chama. Ele se apagou.
Assim como todo começo. Ele terminou.
Assim como todo vento. Ele soprou.
Assim como toda ave. Ele voou.
E pra bem longe, onde só se vê
quando os olhos estão fechados.
Onde os sonhos, o mais doce
sonho é que um dia ele se
realizou. E desse sonho agora
estou acordado.
Os instantes que precedem
algo que muito se quer, são os
mesmo momentos agonizantes
de algo que muito se evita.
E talvez saber que, cedo
ou tarde, isso será consumido,
faz de você um escravo da expectativa.
Hoje não irei visitar nenhum morto.
Hoje irei revirar a terra, que é o
mesmo que procurar, entre todas
as coisas, sofrer. Isso é, acima de tudo
andar pela penumbra e se recusar
a sair dela, mesmo quando
o sol nascer. Isso vai ser o ponto
final, até mesmo porque tudo deveria
começar com um ponto final, afinal
a única certeza que temos é que
tudo chega ao fim.