domingo, 28 de agosto de 2011

Somente no Mar

Pelos caminhos andei
maré do imenso navegar
que e quantas palpitações
me dei ao te olhar.
Ali, de frente sua imagem
calma e serena me laçava
a atenção, sem tua intenção
e a luz de mercúrio recriou
em ti um efeito de sépia
tornando imortal visão.
Olhos, nariz e boca
harmonicamente criados
como a nona de Beethoven
e por Michelangelo pintados.
Não há espelho que possa
tanta beleza suportar
ela só será compreendida
quando refletida no mar.

Um vestido florido
uma pele cor creme
um cabelo reluzente

Um coração ferido
uma mão que treme
uma alma contente.


Visto em vós por todos
faz te um ser que faz brotar
a dúvida se é verdade
que anjos podem
por aqui andar.

poema dedicado à Daniele

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Porque hoje é segunda (e feriado)

hoje é segunda
dia de recomeçar
uma vida moribunda
a se evaporar

hoje é segunda,
velhos hábitos
uma vida se afunda:
tenho que caminhar

hoje é segunda
nada me comove
o tédio se promove
mas hei de findar;

porque hoje é segunda
o ciclo se reinicia
do sangue se cria
a vontade de amar

amor que perdura,
ao passar da semana
me deito na cama
e só quero sonhar.

domingo, 7 de agosto de 2011

Agosto e meu almoço.

A luz do meio dia, violentamente  invade a pele
cinza e porosa. Os olhos são obrigados a se
fecharem imediatamente e logo vão se abrindo
aos poucos. Num processo automatizado de
adaptação à nova intensidade da luz ambiente.

Caminho na calçada contra o vento de Agosto.
Um vento atordoado que carrega poeira e
outros detritos daqui pra lá, numa tentativa de
anunciar a todos sua chegada. Por dentro sinto
reação semelhante mas essa é a fome tentando
me avisar que ela também chegou.

Escolho um canto para me sentar.
Desses que escolhemos estrategicamente
para não ser notados nem percebidos aos
olhos alheios de quem procura fielmente
a surpresa de encontrar algum conhecido
ocasionalmente tentando se esconder dele.

A rotina é algo que vai se tornando embassado
ao longo do tempo. É nessa opacidade de vivê-la
que faço o meu pedido sem se quer abrir a boca
e excluir itens indesejáveis do cardápio que variam
desordenadamente durante a semana.

Quando sou servido, me lembro o quão miserável
pode ser a alimentação de quem não sabe cozinhar:
cai perante mim uma gordurosa comida feito às
pressas. Salada destemperada que não encorpa
o sabor do tempero senão no ato do preparo.
Calado me sento. Calado me levanto.

De volta à Av. Floriano Peixoto, avenida essa
que me recepciona com uma navalhada de vento
gelado que corta meu rosto. Espero minha vez
para por os pés na calçada e tomar meu lugar
em meio a multidão atordoada e que
também voa daqui pra lá como o vento.

Por cima dos automóveis estacionados
é possível ver o reflexo do sol numa imagem
incandescente. Chama acesa que aquece o ar
de tudo que compõe essa pálida avenida
como panfleteiros, cães a vagar, gente sofrida
gente sonhadora e gente que observa tudo.

De todas as horas do dia, a hora do almoço
é a que me sinto em plena liberdade
para então poder dividir o dia entre a vida
e compromissos. Um momento do qual eu possa
chamar de livre. E que é precisamente
cronometrado em duas horas de ar puro.

Duas horas de ar puro. Duas horas de vida.
e nada mais.