sábado, 26 de março de 2011

Um conto sobre um beijo

À Erica Vaneza


Ao tempo que passa
à memória que fica.
E tudo se evapora - pessoa,
para que outra tome
a forma e preencha o vazio
antes dominado pelo escuro
da maior noite de viver só.
Ao calor da tarde, o andar, o suor,
o sorrir e o estar ali.

Pude te ver me olhando - ternura
com os olhos tão verdes quanto as luzes
de um semáforo aberto.
No ar, eu podia sentir teu aroma
tão profundo que tempos
depois, quando respirei fundo,
mas bem fundo, ainda conseguia
senti-lo a vagar no ar.
Como se o próprio ar tivesse
tomado para si a sua fragrância.
Ao fechar os olhos,
cheios de saudade, te sinto
de volta aos meus
braços. Sinto de volta
os fios do teus cabelos
deslizando novamente entre
meus dedos segurando tuas
costas com a delicadeza
de quem segura um violino.

Os segundos que passam,
um momento que não morre
como se tirássemos uma fatia
do tempo e guardasse para sempre.
E que nela havia um pedido
de beijo, um pedido feito
com as feições de quem
deseja sobreviver por algo
tão vital quanto a água é
para as plantas. As plantas
que ornaram a tarde naquele dia
cheio de alegria e vida e cores
verdes, olhos verdes, plantas verdes.

Tudo cabe num beijo.
E é nesse momento que sentimos
as notas de um violino bater
violentamente aos ouvidos
que logo encontram a alma
e o coração. E é neste momento
que alma e coração parecem
vibrar e tocar uma melodia só.

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