terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sobre a Infância

Sonhos que aterrorizam, lugares que não pertenço. No pé da colina a morte. Aviões decolam e cortam o ar. As janelas tremem o mato deita - deitado eu fico.
Depois da turbulência, sempre vem a calmaria. Depois da chuva, sempre vem o arco-íris. Depois da tempestade, sempre vem o sol. Depois das lágrimas, sempre vem a alegria. Depois dos pesadelos, sempre vem o alívio. Depois dos sacrifícios, sempre vem a recompensa. Depois da paixão, sempre vem o amor.

Há uma estrada pro passado que leva às lembranças mais inocentes: A de uma menino, que só queria soltar pipa e andar chutando terra. Que apanhava tamarindos, depois subia no telhado da garagem e acompanhava o vento reger uma sinfonia sobre o pálido trigal. Os olhos ardiam e brilhavam por correr pelo extenso quintal com o bodoque dependurado na cintura, e isso era a maior aventura. O cascalho poroso era munição, as pinhas mais altas eram os melhores alvos. Bolas de gude eram status e o leão, cego de um olho, era meu melhor companheiro.
Minha vó vendia laranjinha e picolé, meu vô cuidava da horta todo dia nas mesmas horas do dia, antes das 6 da manhã, e depois das 6 da tarde, mais o três pés de jabuticaba que tomavam muita água. O sol é o relógio deles, as nuvens e a cor do céu dizem mais que a própria metereologia.
À noite ela tricotava enquanto ele preparava a janta onde iam fatias de queijo, preparado pelo Tio Alfredo, nosso vizinho, por cima do arroz branco. Quando sentia o cheiro ia, logo colher limões para uma gelada limonada.
Não tinha piscina, tinha o córrego das manilhas. Não tinha jogos eletrônicos , tinha uma velha carretinha de madeira e na entrada, perto da porteira de cor branca e descascada do tempo, havia um balanço de cordas amarradas aos galhos do pé de manga.

Não pertenço mais a esse lugar mas é um refúgio e que ainda existe. Porque o passado é um abrigo caloroso e perigoso, onde podemos lá nos deitar às vezes na terra vermelha e quente, e que se levantar sempre será um pesadelo: voltar pra realidade é sufocante.
E quando o aviões decolam, quando as janelas tremem, quando os pesados ônibus fazem a casa inteira estalar; volto nessa estrada, a pé com o bodoque na cintura e o leão caminhando ao meu lado, olhamos dentro da noite, e só ouvimos o estrilado dos grilos e o lusco-fusco dos vaga-lumes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Não gosto muito da minha infância...
Minha história é muito,muito triste e eu me refaço dela TODOS os dias.
O importante é que sobrevivi em meio a tanta tristeza...e aprendi a sorrir.
EU.