sempre carregava comigo um livro de bolso que ganhei de aniversário com frases e pensamentos de diversos escritores que, particularmente, eu considerava um mini-menu-de-citações-de-escritores. houve um dia em que, voltando pra casa, esqueci o tal livro no serviço mas logo passei na sebo mais próxima e adquiri, por influência do mini-menu-de-citações-de-escritores, em promoção, um exemplar de 'o melhor de vinicius de moraes' . era uma tarde quente e sol perdia força no oeste. me sentei na parada de ônibus, observando um ipê magro e sem graça e suas pétalas murchas e sem vida jogadas no chão que formavam um tapete rosa em baixo dos meus sapatos. resolvi fazer um escopo da minha recente compra e foi quando segurei o pequeno livro com o polegar e deslizei o dedão nas páginas amareladas do tempo e aleatoriamente me saltou aos olhos o imortal 'soneto de fidelidade', que não constava, entre outras escritas de vinicius de moraes, no livro de bolso. mas confesso que me transportei para um lugar sem carros, sem buzinas, sem pessoas - só uma brisa levemente rasteira que tentava, inutilmente, fazer com que o tapete rosa flutuasse. e foram quatorze linhas lidas: quatorze linhas que o tempo não conseguiu me acompanhar, e a morte não conseguiu me enxergar, e eu era o único ser do mundo, e eu era o único ser de um mundo criado ali naqueles momentos feitos pelos dois quartetos e dois tercetos que vinicius escrevera em outubro 1939. após a leitura, tudo me pareceu mais vivo, a vida já não tinha o peso que costuma ter ao se levantar da cama. e assim guardei essa emoção com uma pergunta respondida: então é pra isso que serve um soneto(?).
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