terça-feira, 5 de maio de 2015

No caminho há algo puro esperando



abri meus olhos
para mais uma vez
ver o lampejo de luz num
oceano de escuridão.
a luz turva e distorcida
rasgava-me a visão.
dias anestesiados,
semanas de afazia.

medo da noite,
do próximo passo
sem fome de vida.

desprazer de ver as folhas sendo
levadas pelo vento gelado de outono.
                        ...

a morte havia chegado mais cedo.
não a morte de cessar o pulso,
mas a morte de cessar a vida
da vontade, do querer e do desejo.
faca sem fio. corpo criando peso.

ruínas são belas por si só!
mas seria belo um coração em ruínas?
fluir em sangue negro
incapaz de sentir nada
nem mesmo ódio,
ou o ódio de si mesmo.

há algo puro esperando no caminho.
o velho torvelinho se agita
girando no redemoinho de terra.
os olhos embotados ganham cores.
como o céu ganha o arco-íris após a chuva.

mas há algo puro esperando no caminho.
há vida após o dia, há o azul do céu.
ainda canta os pássaros neste ninho
porque a luz brilha ao levantar teu véu.
dizem que para não se sentir sozinho,
às vezes é preciso revirar teu mausoléu

quando abri os olhos
abri também as janelas,
portas, portões e portelas.
não quero esse ar carregado
de pesares passados
não quero bloquear
meu caminho com horas
desperdiçadas de lamúrias
assombrações ou segredos.

quando abri meu sorriso,
abri também o teu sorriso.
abri as mangueiras, o forno e a pia.
abri as mãos e abracei meu dia.
abri comportas e também abri fogo.
descansei no teu colo
aninhei-me em ti.

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