domingo, 2 de fevereiro de 2014

Acerca das manhãs de domingo.


Vejo o dia se esvanecer, embora tenha procurado na memória a latência de uma emoção que por segundos tive, o dia se evapora como fumaça de chaminé. Descompõem-se os risos, desnuda o inaudito olhar de sono sobre a vida enquanto a melodia cessa para dar espaço ao silêncio. A tarde punícea vem lhe beijar o mento, e beija tão pueril, tão suave como folha que aterrissa sobre a grama
em fim de longos invernos. E se vai, mórbida e contente por lhe roubar vida.
O dia se esvanece. A lembrança é uma sala vazia e as memórias são paredes brancas. Não entra luz e não há poder de albedo que as tire dali. O silêncio asfixia e os olhos embotados cosem o caminho à loucura. O céu se sela diante do dia e espalha seu negro pelas sanjas.
Tão perene molha a fumaça. E o cheiro de rosas invade a tarde trazendo um teor tépido sutilmente indolor aos corpos em repouso. A noite invoca as estrelas a brilharem sobre poças d'águas.
Vultos caminham pelas ruas, sombras se escondem de olhares. Tudo está calmo agora - assim como sempre acontece depois de qualquer chuva. E a preguiça de recomeçar é como uma inércia que traz a água do próprio céu.
Vejo o fim se ir como peixe que foge pro fundo do rio e para o fundo todas as coisas vão. E lá permanecem para sempre - lembranças, memorias:
a cadeira de vime,
o sol sobre o trigal,
o raivento que estufa a cortina,
a fumaça branca que sai do mato,
o cheiro do mato queimado,
o focinho do cachorro,
o susto no gato,
meus tocos de cigarro,
meu beijo gripado
e também meu adeus.
Ficam por lá, rameados, enlameados.
Abrigo dos peixes, abrigo do céu. 

Um comentário:

guilherme e. meyer disse...

muito bom cara...

A lembrança é uma sala vazia e as memórias são paredes brancas